Casamento “bíblico” desmascarado

Quem clama que o modelo bíblico de casamento é o de marido e esposa unidos para toda a vida, aparentemente não anda lendo a Bíblia.

Por Miguel De La Torre
Tradução livre: Jandirainbow

Muitos cristãos de hoje em dia falam sobre o casamento tradicional bíblico, mas se a verdade for trazida a tona, saberemos que o casamento tradicional não é um conceito bíblico. De fato, seria difícil encontrar um cristão ou cristã dos tempos modernos que realmente consiga manter um casamento bíblico na prática, já que o entendimento bíblico a respeito do casamento significava a posse de homens sobre mulheres, e que estas existiam para o prazer sexual.

Após o casamento, a propriedade de uma mulher e de seu corpo passaria a ser do novo marido. Como chefes de família, os homens (geralmente na faixa etária de 18 a 24 anos) tinha poderes praticamente ilimitados sobre as esposas e sua prole.

Uma mulher se tornava disponível para a posse masculina logo após atingir a puberdade (em geral, entre 11 e 13 anos), ou seja, quando ela se tornava fisicamente apta a produzir filhos. Hoje, chamamos tal arranjo de estupro estatutário. O modelo bíblico para relações sexuais inclui homens adultos levando meninas para seus aposentos, como fez o Rei Davi em Reis 1:1-3.

Ao longo do texto hebreu, toma-se como certo que mulheres (assim como crianças) são bens dos homens. O texto não enfoca de maneira séria, ou não se concentra na condição das mulheres; sua identidade é formada por sua condição sexual em relação aos homens: filha virgem, noiva desposada, mulher casada, mãe, esposa infértil ou viúva.

Sua dignidade e valor como sujeito criado à imagem de Deus é subordinada às necessidades e desejos dos homens. Assim como bens materiais, o valor das mulheres é frequentemente comparado a uma casa ou um rebanho (Dt. 20:5-7), como demonstrado no último mandamento, “não cobiçarás do teu próximo a casa, a esposa, o escravo, o boi ou o jumento” (Ex. 20:17).

Uma vez que as mulheres eram excluídas de ser sujeitos deste comando, a mulher – como a casa, o escravo, o boi ou o jumento – é reduzida a objeto: apenas mais uma posse, mais uma parte da propriedade que pertence ao homem, e portanto não deve ser cobiçada por outro homem.

Existem muitas maneiras em que a Bíblia não pode ser um ponto de referencia literal ou um livro-guia para casamentos dos tempos modernos. Por exemplo, considerando que o propósito do casamento era a reprodução, a união poderia ser dissolvida pelo homem se sua mulher falhasse em lhe dar herdeiros.

Para além da reprodução, o casamento no contexto de uma ordem patriarcal também servia a fins políticos e econômicos. Os casamentos na antiguidade estavam focados principalmente na codificação das obrigações e responsabilidades econômicas.

Pouca atenção era dedicada a como o casal se sentia, um em relação ao outro. As esposas eram escolhidas nas boas famílias, não só para assegurar a legitimidade da prole de um homem, mas para fortalecer alianças políticas e econômicas entre famílias, clãs, tribos e reinados. Para assegurar-se que nenhum bastardo fosse tido como herdeiro legítimo, as mulheres ficavam restritas a apenas um parceiro sexual, seu marido.

Os casamentos bíblicos podiam ser endogâmicos – ou seja, aconteciam entre membros da mesma família extendida ou clã – diferentemente do conceito ocidental moderno de exogamia, em que uniões ocorrem entre “estranhos”.

Os homens podiam ter tantas parcerias sexuais quantas pudesse sustentar. Os grandes patriarcas da fé, como Abraão, Isaac, Jacó e Judá, tinham múltiplas esposas e/ou concubinas, e se deleitavam com prostitutas ocasionais (Gen. 38:15). Registra-se que o Rei Salomão, sozinho, tenha tido mais de 700 esposas princesas e 300 concubinas (1 Reis 11:3).

O livro de Levítico, ao instruir homens que queriam ter um harém, faz apenas uma proibição, que é não “possuir” irmãs (Lev. 18:18). A Bíblia Hebraica é clara ao dizer que os homens podiam ter múltiplas parcerias sexuais. As esposas garantiam herdeiros legítimos; todas as outras relações sexuais existiam para o prazer da carne.

A mulher, por sua vez, era limitada a apenas um parceiro sexual que mandasse nela – a menos, obviamente, que ela fosse prostituta.

O casamento bíblico era considerado válido apenas se a noiva fosse virgem. Se ela não o fosse, então teria que ser executada (Dt. 22:13-21).

Os casamentos só poderiam acontecer se as mulheres fossem crentes (Esdras 9:12). E se o marido morresse antes de ter filhos, seu irmão deveria casar-se com a viúva. Se ele recusasse, ele teria confiscada uma de suas sandálias, seria cuspido pela viúva, e teria de mudar seu nome para “A Casa do Descalço” (Dt. 25:5-10).

Ainda que não queiramos admitir, o casamento é uma instituiçãoo em evolução; um construto social que vem mudando para melhor desde os tempos bíblicos. Quem clama que o modelo bíblico de casamento é o de marido e esposa aparentemente não tem lido a Bíblia ou examinado as fontes documentais que descrevem a vida na antiguidade.

O quanto antes nos afastarmos do mito do chamado casamento tradicional bíblico, mais preparados estaremos para discutir o que constitui uma família no século 21.

Miguel De La Torre

Miguel De La Torre é professor de ética social e estudos latinos na Illiff School of Theology em Denver, EUA, e ministro Batista ordenado.

O artigo original em inglês foi publicado em 12 de fevereiro de 2013, no site da Associated Baptist Press – ABP News. Permalink: http://www.abpnews.com/opinion/commentaries/item/8209-#.UR4W71rwKv0

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Orgulho Trans

Está aqui comigo um companheiro transexual, Mário, que conseguiu casar-se com uma noiva também transexual, em México, DF. Muito orgulhoso do casamento, da noiva, e visivelmente apaixonado, ele nos mostra o vídeo de seu casamento.

União civil homossexual: a luta continua

A luta continua
Do blog da Lúcia Hippólito

Um dos pontos mais importantes do Programa Nacional de Direitos Humanos, criado por decreto assinado pelo presidente da República – e que tanta celeuma está causando nos meios militares – é a proposta de retomada da discussão sobre a união civil entre pessoas do mesmo sexo.

Este é um debate crucial, que não pode ficar restrito ao Congresso Nacional, que deverá votar uma lei para regular o assunto.

É uma discussão que interessa a toda a sociedade brasileira.

O século XX foi o século da luta por direitos civis. Começou, a rigor, no século XIX, com a luta pelo voto feminino.

A Nova Zelândia foi o primeiro país a conceder o voto às mulheres, em 1893; a Inglaterra em 1918, os Estados Unidos em 1920 e o Brasil em 1933.

Em seguida, a luta disseminou-se para combater a segregação racial, ampliar os direitos da minorias, incluir os excluídos. A partir da década de 1960, acirrou-se a luta por mais direitos civis, com muitas conquistas importantes.

E chegamos ao século XXI.

De certa forma, a eleição de Lula em 2002 e depois a eleição de Obama em 2008 encerram um importante capítulo na luta pelos direitos civis.

Vitória da inclusão, da tolerância, da aceitação do outro, do convívio entre diferentes.

Agora é preciso avançar. E a união civil entre pessoas do mesmo sexo está na ordem do dia.

Vários países já adotam legislação que reconhece esta união.

O pioneirismo, é claro, coube à Escandinávia. Na Dinamarca, a lei é de 1989; na Noruega, de 1992, e na Suécia, de 1995.

Ainda na Europa, Espanha, Portugal e Bélgica (países fortemente católicos) já reconheceram a união civil. A Holanda também já tem legislação a respeito.

Nos Estados Unidos a legislação é local, e várias cidades já possuem leis a respeito da união homossexual, além dos estados de Massachusetts e Connecticut.

Canadá e México também já reconhecem a união civil.

Na América do Sul, Uruguai e Argentina já aprovaram a lei. A Argentina foi a pioneira na realização de um casamento gay.

Aliás, no Brasil, como em muitos países, o debate foi contaminado, em grande parte, pela adoção da infeliz expressão “casamento gay”.

Religiosos de todas as igrejas, conservadores de todos os matizes reuniram-se para impedir a aprovação de lei que regule a união homossexual.

A Constituição brasileira de 1988 fala, em seu Art. 226, em casamento e em união estável, mas sempre entre homem e mulher.

Em 1995, a então deputada Marta Suplicy apresentou o projeto de lei nº 1.115/95, em favor da regularização da parceria civil entre pessoas do mesmo sexo.

Desde então, o projeto dorme em alguma gaveta da Câmara dos Deputados, à espera de algum deputado (ou deputada) sério e corajoso o suficiente para fazer avançar a legislação.

Antecipando-se a qualquer lei, várias empresas brasileiras já estendem ao companheiro de mesmo sexo os benefícios de planos de saúde e de previdência.

Juízes igualmente já tomam decisões beneficiando companheiros de mesmo sexo em partilhas, heranças e pensões.

Até mesmo a Justiça Eleitoral já reconheceu, em alguns casos, a união homossexual como parte da lei das inelegibilidades.

Portanto, a discussão sobre direitos civis no século XXI precisa avançar. Até para honrar as lutas do século XX.

Está mais do que na hora de a sociedade brasileira realizar uma discussão ampla e aberta sobre a nova pauta dos direitos civis.

União homossexual, aborto e eutanásia são os temas do século XXI.

É preciso discuti-los com coragem e determinação.

Precisamos avançar.

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