ALÔ RIO DE JANEIRO!!

Que tal se o metrô criasse estações de integração na Praça da Cruz Vermelha e no Largo do Catumbi, a partir da Cinelândia?



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Homem, Mulher ou X?

Carta Capital

Na Austrália, cidadãos com passaportes poderão ser identificados como homens, mulheres ou simplesmente 'X'

Cidadãos australianos têm três opções para escolher seu sexo em seus passaportes: masculino, feminino ou X. Foi o que anunciou, na quarta-feira 14, o ministro australiano do Exterior, Kevin Rudd, conforme reportou o diário Canberra Times.

A nova categoria, diga-se, é válida somente para intersexuais, ou seja, aqueles que biologicamente não podem ser considerados inteiramente femininos ou masculinos. Indivíduos que mudaram de sexo, mesmo aqueles não operados, poderão optar entre as categorias homem ou mulher – mas não poderão selecionar X.

Até agora, pessoas que mudavam o gênero a elas designadas no nascimento eram obrigadas a fazer cirurgia para serem consideradas como mulheres ou homens nos seus passaportes. Em numerosos países este ainda é o caso. Contudo, qualquer país membro da Organização da Aviação Civil Internacional (OACI) pode oferecer a categoria X aos seus cidadãos.

Louise Pratt, senadora australiana cujo marido nasceu mulher e agora se identifica como homem, disse que a categoria X é muito importante porque há pessoas geneticamente ambíguas às quais um sexo foi atribuído ao nascerem. Essas pessoas, em suma, nunca puderam escolher seu sexo. Como se isso não bastasse, intersexuais são discriminados, emendou Pratt.

No entanto, se intersexuais não serão mais discriminados em aeroportos, a batalha é mais difícil em outros campos. No esporte, por exemplo, esse é um tema a provocar enorme controvérsia. Isso porque atletas, especialmente mulheres, reclamam quando suspeitam que rivais superiores sejam homens.

Nos Jogos Asiáticos de 2006, por exemplo, a hindu Santhi Soundarajan, corredora de 800 metros rasos, perdeu sua medalha de prata após um teste para identificar seu sexo. À época, o jornal Times of India entrevistou a ginecologista Sharmila Lal. Disse a doutora Lal: “Não é possível determinar se uma pessoa é homem ou mulher somente olhando para sua genitália ou aparência física. Certas pessoas nascem com órgãos sexuais ambíguos, outras têm uma anatomia que não corresponde aos seus cromossomos sexuais”.

A doutora Lal referia-se ao seguinte: na vasta maioria das vezes, dois cromossomos X (XX) determinam o sexo da mulher, e um cromossomo X e outro Y (XY) confirmam o sexo do homem. Porém, há mulheres com um cromossomo Y – e por vezes desconhecem o fato por terem todas as características de uma mulher. Em outros casos, mulheres com dois cromossomos X podem ter aspecto masculino.

O governo da Índia não reconheceu o teste dos Jogos Asiáticos, oferecendo à atleta 34 mil dólares. Mas a humilhação pública pela qual passou levou Soundarajan a tentar se suicidar.

A discriminação contra intersexuais, transgêneros e pessoas que mudam de sexo na sociedade continua. De qualquer forma, Peter Hyndal, do grupo australiano A Gender Agenda, disse que a reforma é histórica.

Permalink: http://www.cartacapital.com.br/internacional/homem-mulher-ou-x

ATUALIZAÇÃO SOBRE BRENDA NAMIGADDE

Como sabem, na semana passada uma campanha impulsionada pela organização AllOut.org chamou a atenção para o caso de Brenda Namigadde, uma mulher que há oito anos fugiu do seu país, Uganda, depois que ela e sua parceira foram atacadas e forçadas a se esconder. Enquanto os acontecimentos ainda estão recentes e frescos na memória de todas e todos, aqui vão algumas atualizações sobre o que foi feito e em que pé o caso se encontra.

Há duas semanas, Brenda estava para ser deportada de volta para Uganda, de onde o político notoriamente homofóbico David Bahati já tinha lhe enviado um recado ameaçador por meio da jornalista norte-americana Melanie Nathan, dizendo que ela deveria “se arrepender ou se curar”. Hoje, Brenda está livre, foi libertada de um centro de remoção da imigração na Inglaterra, e está trabalhando com seus advogados e adovogadas num novo pedido de asilo.

Além do objetivo imediato de impedir a deportação de Brenda, essa campanha mostrou um alto potencial solidário de pessoas em todos os lugares do planeta, mostrando a força que podemos ter quando nos mobilizamos e organizamos pro um objetivo comum. É uma demonstraçaõ de como ações concretas e estrategicamente motivadas podem ter um impacto significante em políticas e culturas ao redor do mundo. Veja alguns números e fatos sobre a campanha para salvar Brenda Namigadde da deportação.

– Mais de 60 mil pessoas de mais de 160 países assinaram uma carta endereçada à Secretária do Interior do Reino Unido solicitando ao seu gabinete que interviesse no caso.

– Ao passo que a grande maioria dessas pessoas estejam no Reino Unido, houve também o apoio de milhares de pessoas da Europa e do Leste Europeu, milhares na América Latina e Caribe, e mais centenas de pessoas que estão na África e Ásia.

– A campanha recebeu cobertura dos principais meios de comunicação do Reino Unido e Estados Unidos e também pela blogosfera: The Guardian, The Independent, BBC, The New York Times, Huffington Post, The Advocate,Change.org, etc.

A partir do gigantesco apelo público e de declarações de pessoas de destaque na Inglaterra, a deportação de Brenda Namigadde, marcada para 28 de Janeiro, foi suspensa. Uma campanha orientada especificamente aos Membros do Parlamento do Reino Unido conseguiu a assinatura de mais de 50 parlamentares numa moção de apoio ao caso de Brenda. E na última segunda-feira, um juiz decidiu que as evidências do caso de solicitação de asilo merecem uma nova avaliação judicial.

Ainda é preciso manter a atenção sobre este caso para que toda a energia depositada não tenha sido em vão, e continuar enfrentando as razões por que tudo isso aconteceu, numa perspectiva mais estrutural (um programa de asilo desfuncional e não afinado com as necessidades de LGBTs que procuram asilo, o papel descomunal de evangélicos norte-americanos na exportação do ódio para África e além).

Naquela noite de 28 de janeiro, a deportação de Brenda foi adiada. A semana seguinte foi de muito trabalho junto a seus procuradores, o gabinete do representante parlamentar da região em que ela vive na Inglaterra, preparando as apelações para a audiência. Na última segunda-feira, 7 de fevereiro, um juiz decidiu em favor de Brenda, concluindo que as evidências de seu caso indicam para uma nova avaliação do seu pedido de asilo. No dia seguinte, Brenda foi liberada da detenção e está trabalhando com seus advogados para juntar toda a documentação e mais evidências para a nova solicitação.

Brenda agradece pelo apoio de todas as pessoas que fizeram sua parte para salvá-la da deportação a um país onde ela seria, declaradamente, perseguida, provavelmente presa e, quem sabe, morta, caso a lei de “Morte aos Gays” do parlamentar David Bahati seja aprovada. Agradece-se também a todas as pessoas que ajudaram a espalhar a campanha pelo mundo. Mas este é apenas um caso em milhares, e ainda não acabou. É preciso manter a atenção sobre o caso de Brenda Namigadde, fazer pressão internacional para que o Parlamento de Uganda não aprove a lei de pena capital a homossexuais, entre outras barbaridades que vem acontecendo mundo afora.

www.allout.org/en/brenda

 

 

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Culto no horário eleitoral

Por Dê, no blog DêJota

Publicado em 09/09/2010 às 12:37

Vi hoje um vídeo (abaixo) onde o Pastor Paschoal Piragine Jr, presidente da Primeira Igreja Batista de Curitiba, num de seus cultos, falou sobre as eleições 2010. Em sua fala, Paschoal diz que o Povo de Deus tem que ter cuidado em quem vai votar nessas eleições e para isso, diz que a Igreja tem que saber o que é iniquidade e a comparando-a ao pecado e dizendo que as pessoas em quem votamos é que vão votar nas casas legislativas pelo que ele chama de “institucionalização da iniquidade”.

Pois bem. Pra começar o Pr. Piragine está equivocado com o significado de iniquidade, que em sentido lato é a falta de equidade. Já equidade, segundo o Aurélio, é “Disposição de reconhecer igualmente o direito de cada um; Conjunto de princípios imutáveis de justiça que induzem o juiz a um critério de moderação e de igualdade, ainda que em detrimento do direito objetivo; Sentimento de justiça avesso a um critério de julgamento ou tratamento rigoroso e estritamente legal; Igualdade, retidão, equanimidade.”

O Pr. Paschoal convoca o Povo de Deus a entrar junto com “as igrejas” no que chamou de “cruzada”. Ao pensar no que eram as Cruzadas, as tais “Guerras Santas”, onde muita gente morreu porque a Igreja Católica medieval combatia todas as pessoas que não rezavam pela sua cartilha – ou Bíblia, como queiram; minha pergunta mais inquieta é: por que as igrejas também não se juntaram para combater a pedofilia, que acontece cada vez mais dentro das próprias igrejas (evangélicas e católicas) e, ao contrário da homossexualidade, é considerada um desvio sexual pela Organização Mundial de Saúde – OMS? Aliás, a mesma igreja vem tentando desviar o foco do escândalo da pedofilia jogando a culpa na homossexualidade, ao atribuí-la a práticas homossexuais. Isso não só é mentira, como cada dia mais vem se mostrando um sofisma. Os casos de meninos abusados por padres e outras autoridades eclesiásticas são mais frequentemente publicizados que os de meninas. Alguém se aventura a tentar dizer o porquê? Sendo simplista, eu diria machismo, mas acredito que esse buraco vai muito além do baixo ventre…

Aliás, o machismo é uma prática que a própria igreja é definitivamente favorável. Vejamos. O Levítico, terceiro livro do Velho Testamento é um dos que condenam a homossexualidade, chamando-a de abominação, ordena também que o povo Cristão guarde o sábado; que não toque em pele de porco morto; admite a compra e venda de escravos; indica que as adúlteras sejam apedrejadas. Na mesma bíblia não há nenhuma revogação dessas “leis”, mas será que as igrejas têm apedrejado quem não as cumpre? Já no Novo Testamento, o apóstolo Paulo ordena que as mulheres estejam caladas na Igreja, que a mulher seja submissa ao marido, que use véu na igreja… será que nas denominações que integram esta “Cruzada” as mulheres observam essas proibições? Será que as que são pastoras, cantoras, diaconizas e bispas não estão desobedecendo a “Lei”? Pelo visto, para a Igreja, SOMENTE as prescrições sexuais na bíblia são intocáveis, irrevogáveis, inquestionáveis e inegociáveis.

Interessante ainda é ouvir o Pr. Paschoal Piragine Jr demonizar o PT (Partido dos Trabalhadores), porque é o único partido que indica que suas e seus parlamentares votem a favor de temas como a descriminalização do aborto e do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, sob pena de expulsão do Partido; me faz pensar até onde o horário eleitoral gratuito tem chegado. Não vou entrar no mérito da campanha, pois não é este o objetivo deste blog. Além de pensar na intolerância contra homossexuais e na forma que a igreja trata a mulher, penso ainda sobre a mutilação de algumas crianças, que sofrem a circuncisão obrigatória e fazem esse procedimento sem anestésico algum. Bem… acho que para a maioria das igrejas o nascituro é mais humano que a criança.

A moça do vídeo mostrado pelo Pastor em dado momento fala que o Povo de Deus tem que “tirar a venda dos olhos”. A Bíblia também diz que o Povo de Deus não deve julgar outras pessoas e que é necessário primeiro tirar a trave do olho antes de falar do cisco no olho do outro. Isso está nos evangelhos:

(São Mateus 7,1-5)

Não julgueis, para que não sejais julgados.

Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós Por que observas o cisco no olho do teu irmão e não reparas na trave que está no teu próprio olho?

Ou, como podes dizer ao teu irmão: ‘Deixa-me tirar o cisco do teu olho’, quando tu mesmo tens uma trave no teu?

Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu próprio olho, e então enxergarás bem para tirar o cisco do olho do teu irmão.

(São Lucas 6,41-42)

Por que observas o cisco que está no olho do teu irmão, e não reparas na trave que está no teu próprio olho?

Como podes dizer a teu irmão: ‘Irmão, deixa-me tirar o cisco do teu olho’, quando não percebes a trave que está no teu próprio olho? Hipócrita! Tira primeiro a trave que está no teu olho e, então, enxergarás bem para tirar o cisco do olho do teu irmão.

Eu só posso pensar que, palavra contra palavra, então viva a Constituição Federal que diz que todas as pessoas são iguais perante a lei. Viva o princípio da isonomia! Viva o estado laico, que é o Estado de Direito que rege o Brasil (ou ao menos deveria) desde a Proclamação da República, nos idos de 1889, o que denota o quanto esse pensamento consegue ser ainda mais retrógrado no sentido mais literal da palavra, significando uma nova “ordem inquisitória”, que é a de perseguir todas e todos que não seguem a mesma sacrossanta bíblia.

Adriana Calcanhoto oficializa união com Susana de Moraes

Divirta-se – Portal UAI // Gil Rodrigues/Esp. Aqui BH/D.A Press

Adriana Calcanhoto oficializou sua relação com a cineasta Suzana de Moraes, filha de Vinícius de Moraes. De acordo com informações do jornal O Dia, a cantora declarou à Justiça sua união civil com a companheira.

Ainda segundo a publicação, Adriana e Suzana, que já dividiam o mesmo teto, comemoraram a ocasião com uma festa realizada na casa onde moram, nesta segunda-feira.

O casamento homessexual ainda não é previsto em lei no Brasil. Já a união estável entre pessoas do mesmo sexo é reconhecida pela Justiça, ainda que não garanta os mesmos direitos do casamento.

Será que no Japão todo mundo é homossexual? (ou SuceSSo, ProgreSSo, garfo, faca e “hashis”)

Acabei de ver um vídeo muito lindo que a Dànskï postou no Facebook a noite passada. É um filme publicitário da gigante malaia de óleo e gás, Petronas, produzido em 2007 e mega premiado até hoje. Foi “requentado” no Brasil no último dia 13 de agosto, data que nos últimos anos começa a ser explorada pelo comércio como o “dia dos solteiros” em terras brasilis.

O vídeo mostra um garoto muito meigo e carinhoso sendo perguntado por uma mulher (em inglês) se ele gosta de alguém, se tem namorada, essas coisas – ao que ele responde positivamente, e a mulher vai fazendo a investigação. Ele revela que gosta de uma colega de classe, uma menina de quem ele não pode gostar, mas gosta porque usa brincos e rabo-de-cavalo. Perguntado se ela sabe dessa, digamos, admiração, ele responde que não, que aliás ele não gostaria que o mundo inteiro soubesse. Por que não? “Por que o mundo inteiro iria rir de mim, já que ela não gosta de mim”. Logo em seguida a menina aparece em cena dizendo que o melhor amigo dela é ele, e quando perguntam se ela tem namorado ela diz que sim, e que é justamente ele. Ele, muito tímido, agarra a mão dela e os dois se afastam da câmera pelo corredor da escola.

Fofo. Simplesmente lindo. Poderia parar por aí, mas o marketing institucional jogou o seguinte mote: “Nossas crianças não distinguem cores. Devemos tirar isso delas?”. Veja.

Genial, ahn?
(Atualização do post em 7/9/10: leia abaixo o comentário de Sonia Corrêa para entender melhor o contexto desse lindo casal.)

Como minha onda não é vender petróleo, mas tentar chegar a uma situação social em que haja justiça de gênero, me lembrei de um outro vídeo, uma outra ideia igualmente genial, mas que não chegou a ser veiculada na grande mídia. Talvez porque não venda petróleo, talvez porque seja no Brasil, talvezes… O filme foi produzido por uma agência de publicidade, segundo ouvi dizer foi um trabalho voluntário para uma campanha do Governo do Estado do Rio de Janeiro pelo fim da discriminação por orientação (homo)sexual. Mas no fim das contas, aparece no canto direito a logo do Grupo Arco-Íris… bem, tem gente que diz que é a mesma coisa, mas deixa pra lá que isso é coisa que eu nunca entendi em terras cariocas.

O mote do filme era que todas as letras do alfabeto precisam de outras para formar palavras, e que, em certos casos, a união de duas iguais é necessária para alcançar certos resultados. Por exemplo: neceSSária, essa palavra não seria poSSível no idioma brasileiro se duas letras iguais não estiveSSem juntas. Assim como também não haveria o progreSSo, a cOOperação, e a comprEEnsão.

Não é?

Na semana passada estive no SiSeJuFe para um evento de homenagem à visibilidade lésbica, organizado pela companheira ativista Virgínia Figueiredo. Avalio que esse evento ficou no mesmo nível que a II Caminhada de Lésbicas e Bissexuais do Rio de Janeiro, em termos de alcançar a visibilidade no sentido de dialogar com a sociedade. Há mais ou menos um ano comecei a questionar o sentido de lutar por “visibilidade”. Cheguei a uma conclusão (pelo menos temporária): queremos visibilidade para conquistar o direito a sermos invisíveis, ou seja, para não sermos apontadas ou discriminadas pelo fato de nos relacionarmos com essa ou aquela pessoa. No caso das lésbicas, por gostarmos de mulheres e não estarmos a serviço do prazer dos homens. Ih… tem gente que não faz ideia de como isso é “grave” na nossa sociedade…

Naquela noite, além de algumas de nós, lésbicas (melhor, Marian*?), havia uma meia dúzia de umas dez pessoas do sindicato ouvindo o que tínhamos a dizer. Eu não estava na mesa, mas a própria Virgínia inscreveu meu nome, antes de eu manifestar o desejo, para falar logo depois que as companheiras meseiras terminassem suas exposições. Ou seja, ela encabeçou a lista de inscrições com meu nome, o que eu acatei de bom grado, queria mesmo comentar trechos das falas das minhas queridas companheiras que naquela noite ocupavam os lugares de destaque daquele auditório: salve, salve Paula Theodoro, Marcelle Esteves e Virgínia Figueiredo!

Uma das coisas era o caso das lésbicas “femme”, ou as “femininas”, aquelas que não dão muita “pinta” de sapas, não são masculinizadas, não usam cabelo curto, bermudões, bonés, não fazem o tipo caminhoneira, fancha, butch, vocês já entenderam. As “pintosas”, diziam as companheiras, não têm como passar desapercebidas no emprego, na escola e outros espaços da vida cotidiana; são facilmente identificadas e na maioria dos casos discriminadas. As “femininas”, diziam, passam desapercebidas, a não ser que demonstrem alguma atitude que não condiga com o papel feminino, que falem grosso, que não aceitem uma ou outra situação em que se espera um comportamento passivo das mulheres. Bem… acho que não precisa ser lésbica para isso acontecer.

Mas (o)usei o microfone para lembrar que mesmo as “femme” não passam desapercebidas coisíssima nenhuma. Um dos lugares-comum da produção pornô para homens é justamente o sexo “lésbico”, com duplas de gostosas de unhas gigantescas exibindo um sexo plástico para o bel-prazer dos rapazes. E outro muito recorrente é o comentário inconveniente dos caras quando veem duas meninas bonitas (ou seja, nos padrões de beleza da globo, da marie claire, da nova, da capricho, da playboy…) juntas, de mãos dadas, abraçadas ou se beijando: “aí, gostosas, deixa eu entrar no meio de vocês duas…”. Ou seja, só passam desapercebidas se estiverem bem invisíveis dentro do armário. Mas aí também não precisa ser lésbica. Soltei a seguinte cena lá no auditório do SISEJUFE: alguém olha duas mocinhas juntas e diz “pôxa, duas mulheres bonitas, vistosas, estão ficando uma com a outra, como assim!? Deve ter alguma coisa errada aí, né?” No auditório, as cabecinhas dos poucos homens presentes balançavam concordanco com a parte “deve ter alguma coisa errada aí, né?”. Quebrei com “não, nada de errado, é assim mesmo, tem gente que gosta de homem, tem gente que não gosta”.

Minha amiga e também ativista lésbica Heliana Hemetério diz uma coisa com que eu concordo profundamente: em um mundo criado por homens e para servir aos homens, o simples fato de uma mulher não precisar do falo para ter prazer dá um nó na cabeça de quem nunca pensou, digamos, “fora da caixa”, a partir de uma perspectiva menos óbvia do que aquela imposta pelo modelo católico-cristão-heterorientado-conservador – não necessariamente nessa ordem… Ela vai além e lembra que os gays servem ao desejo masculino; as travestis e mulheres transexuais, grande parte das vezes, servem ao desejo masculino; as pessoas bissexuais, em algum momento, também; as lésbicas não.

De minha parte, considero como “masculino”, nesse caso, não apenas os homens biológicos, mas todas as pessoas que se utilizam de algum “poder” para submeter outras a todo e qualquer tipo de discriminação negativa. Essa semana, em meu perfil no Facebook, citei um trecho do livro Nações Unidas, População e Gênero: homens em perspectiva, tese de doutorado de Margareth Arilha, publicado pela editora InHouse no mês passado. Diz o seguinte “(…) o gênero é uma das primeiras maneiras de dar significado às relações de poder, ou (…) gênero é um primeiro campo por meio do qual o poder é articulado.” Voltemos ao primeiro vídeo que mostrei nesse post. Pensemos na “guerra ao terror” dos EUA no Iraque, nos conflitos entre Israel e o povo palestino, nos impedimentos de relacionamento entre castas na Índia, no rechaço da família da moça que apresenta um namorado “bugre” à família, nos enormes muros sociais que isolam a classe média da favela – Romeu e Julieta, se quiserem – nos jogadores de futebol que, negros e pobres, viram ricaços negros que pegam loiras (na porrada, inclusive), a lésbica fancha que desce o braço na companheira porque chegou em casa e a comida não estava pronta… e assim por diante. Tudo são jogos de poder onde um sujeito quer sempre mostrar a superioridade sobre o outro.

Mas tenho que dar o braço a torcer, deixar de discurso complexo e reconhecer: as lésbicas somos marginalizadas, violentadas e mortas, em última análise, pelo fato de não servirmos ao modelo em que o homem tudo pode e a mulher está para servi-lo. Acho isso também. Discurso radical? Pode ser, mas é aí mesmo que mora o problema: na raiz da nossa sociedade.

Sociedade, aliás, que (a)fundada pelo bispado que para cá veio com o Sr. Cabral (eita nomezinho pra se repetir catastroficamente na nossa história, minhas deusas!!), depois de estabelecer que a família seria uma instituição coletiva para acumulação de bens, dessexualizar as crianças para que os corpos chegassem ilibados ao matrimônio, pois assim haveria a certeza de que os “rebentos” seriam legítimos espécimes da linhagem em questão, de modo a não dividir o capital acumulado com bastardos, hoje usa a metáfora do garfo-e-faca para desqualificar as relações amorosas/sexuais entre duas pessoas de mesmo sexo biológico.  Ai, ai, nem Jesus, no tempo dele, cometia uma gafe dessas, né…  Ora, já faz muito tempo que o sexo deixou de ser praticado somente para a reprodução, na maioria das culturas do mundo – isso esteve de moda na Idade Média, já está “demodê”! Já aprovamos a lei do divórcio, adotamos as pílulas de hormônio como método contraceptivo, o DIU é política pública, São Paulo já distribui a pílula do dia seguinte, camisinhas são distribuidas em postos de saúde pelo Estado, que também oferece cirurgias de readequação genital para transexais. E ainda tem gente dizendo por aí que mulher com mulher, homem com homem não pode porque ninguém come com dois garfos ou duas facas. Bizarro, né? Falta pensar só um pouquinho “fora da caixa” e deixar o pensamento passear um pouquinho mais pro leste. Por exemplo, será que no Japão, onde a comida se come com dois pauzinhos iguais, todo mundo é homossexual?**

Eu diria que é melhor começar a mudar o discurso. Nossas crianças, por aqui também, a cada dia mais conectadas, já entendem que esse discurso não cola. E afinal, se elas já não distinguem cores, devemos tirar isso delas? Acho que não.

Olha de novo: não existem brancos, não existem amarelos, não existem negros: somos todos arco-íris.

Ulisses Tavares

Fica a dica.

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*A companhira Marian fez uma crítica ao post anterior, dizendo que “Acho que o verdadeiro preconceito e até violência serão derrubadas, o dia que troquemos o elas por nós.” Penso eu que faz sentido, sim, que talvez isso não resolva tudo, mas é uma parte muito importante da equação.  Acato a crítica.

** Capturei essa “sacada” da companheira Rosa Posa, do grupo Aireana de Assunção, Paraguai, em um de nossos encontros pelas américas. Gracias, Rosa!

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Jan querida,

Há uma coisa nesse video coisa que nem você nem niguem parece ter percebido bem no Brasil.

O menino é malaio e a menina é chinesa… Para nós, como ela e ele tem olhinhos rasgados, fica sendo “tudo chinês”, aliás é isso que diz o título da matéria.

Não é bem assim: na Malásia, as comunidades malaia, chinesa e indiana vivem vidas “separadas”. São tratadas de maneira muito diferente pelo estado que dá mais benefícios aos malaios, ou seja uma política de ação afirmativa de base étnico religiosa que entre outras coisas discrimina e estigmatiza a comunidade indiana (há vários líderes da comunidade indiana que lutam contra esse estado de coisa presos por razões políticas).

Ou seja, na Malásia implementa-se, de fato, desde a idependência nos anos 1960, o tal “governo das diferenças” essencialistas de que fala Franklin Gil no texto apresentado no Diálogo SPW Latino Americano. É isso que torna o vídeo tão contudente. As duas crianças que nele aparecem estão “impedidas” pelas regras do governo da diferença de se amarem e sobretudo de se casarem. Não que não existam casamentos inter-étnicos, mas são raros e socialmente condenados, assim como também acontece na Índia no caso de casamentos entre castas e pessoas de religiões diferentes (hindus com mulçumanas, mulçumanas com cristãos, etc). Vale lembrar que as propostas de tratamento diferenciados de minorias tampouco está aussente no debate brasileiro, inclusive do debate sobre política sexual.

Finalmente, mas não menos importante, é brutalmente irônico que esse lindo spot de TV – que questiona a lógica de diferenciação social e política produzida por um estado nacional – seja também propaganda de uma empresa petroleira. No mundo inteiro, as empresas petroleiras infringem demandas justas de direitos que se constroem com base em percepções diferenciadas em relação ao significado dos recursos naturais, em nome do lucro. Basta buscar no google informação sobre o que se passa no delta no Níger, ou melhor ainda sobre um protesto recente dos Maoris contra um acordo assinado entre o governo da Nova Zelândia e a Petrobrás para prospecção de petróleo em áreas que são por eles consioderadas seus territórios ancestrais.

Vivemos num mundo muito complicado!

Sonia

(se quiser pode postar esse comentário)

Por e-mail, 7/9/2010.

O Rio de Janeiro ORGULHOSAMENTE apresentaaaaaaa!…

… a 2ª Caminhada de Lésbicas e Mulheres Bissexuais do Estado!!!!

Cerca de 100 lésbicas e mulheres bissexuais caminharam no último domingo do Posto 6 ao Posto 2 da praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, sob o lema “Lésbicas e mulheres bissexuais pelo fim da violência contra todas as mulheres”.

A segunda edição da caminhada, organizada pelo Fórum de Lésbicas e Mulheres Bissexuais do Estado do Rio de Janeiro com o apoio da SUDIM e da SUPERDIR (SEASDH)*, celebrou o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica, 29 de agosto, referência à data de inauguração do primeiro Seminário Nacional de Lésbicas – SENALE. Organizado em 1996 por ativistas lésbicas do Rio de Janeiro, o primeiro SENALE contou com a participação de mais de cem militantes de vários estados do Brasil que pela primeira vez pensaram em ações e políticas nacionais para a cidadania das mulheres homoafetivas.

A segunda Caminhada de Lésbicas e Bissexuais coloriu a Avenida Atlântica com muito orgulho e alegria, ao mesmo tempo informando à população de Copacabana e do Rio de Janeiro por que caminhamos e lutamos: políticas públicas igualitárias e justas, que contemplem toda a população do estado, INCLUSIVE as lésbicas e mulheres bissexuais.

Em primeiro lugar, as políticas de segurança pública, seguridade social e combate à violência contras as mulheres. As mulheres que se relacionam afetivo-sexualmente com outras mulheres têm sido expostas à violência doméstica, familiar, estupros e outras medidas violentas chamadas “corretivas” da homossexualidade, sejam perpetradas por pessoas da comunidade, familiares, pais, tios, irmãos, ou mesmo por desconhecidos nas ruas, pelo simples fato de expressar o seu afeto a outra mulher. Quando em sitação de cárcere, as mulheres que se relacionam com outras mulheres são expostas a todo tipo de humilhação, impedidas de receber suas companheiras sob o argumento de que não há parentesco, não têm direito a visitas íntimas e, ainda, recebem atendimento de saúde ainda mais precário do que o oferecido às detentas com orientação heterossexual. Uma vida digna e sem violência é um direito de todas as mulheres. Por isso, políticas para lésbicas são políticas igualitárias de segurança pública, políticas carcerárias igualitárias e que respeitem os direitos humanos das mulheres, e políticas de formação integral de agentes policiais e de segurança para a diversidade.

A violência, física e psicológica, também acontece por parte de mães, avós, irmãs, tias e outras tutoras, responsáveis e autoridades, no ambiente doméstico, de trabalho, nas escolas, hospitais e delegacias… em todos os espaços de atendimento e serviço público à população. É preciso desenvolver e implementar políticas públicas de educação igualitária, para a diversidade e democrática, marcando o princípio constitucional da igualdade perante o Estado em todas as instâncias do processo educativo, envolvendo toda a comunidade escolar e as famílias em processos integrais de educação para a cidadania, para que mães, pais, a comunidade escolar, a comunidade em geral compreendam a importância da não-discriminação por sexo, orientação sexual e identidade de gênero para o desenvolvimento humano. Por isso, políticas para lésbicas são políticas igualitárias de educação, moradia, inclusão digital e acesso às cidades.

Nos cuidados com a saúde, somos submetidas a um tratamento diferenciado em unidades de atendimento, postos de saúde, hospitais, clínicas e consultórios, tanto públicos quanto privados. Diferenciado porque os e as profissionais não tiveram, na sua formação, nenhum tipo de sensibilização para os temas da diversidade sexual, para a complexidade possível no exercício da sexualidade, tampouco para os direitos sexuais E REPRODUTIVOS de mulheres que não se relacionem sexualmente apenas com homens. Não queremos tratamento diferenciado de ninguém; queremos bom tratamento e atenção de qualidade a saúde para todas as pessoas. Queremos ter tratamento igualitário. Lésbicas e mulheres bissexuais estão expostas a todas as doenças sexualmente transmissíveis, em

especial as hepatites virais, mas até o momento não são contempladas com nenhuma política de informação, prevenção e tratamento que considerem as especificidades da prática sexual entre mulheres. Estando ainda expostas aos estupros “corretivos”, estão vulneráveis ao contágio pelo HIV, e nessa situação ficam ainda mais vulneráveis quanto à saúde mental. Por isso, políticas para lésbicas são políticas igualitárias de saúde integral.

Lésbicas e mulheres bissexuais, assim como todas as pessoas, também podem querer formar – ou não – suas próprias famílias, ter filhos e filhas, gerados no próprio ventre ou no ventre de outras mulheres. Política para lésbicas é uma política igualitária de adoção.

Nós, lésbicas e mulheres bissexuais, também encontramos a nossa “outra metade da laranja”, vivemos conjugalmente, construímos patrimônio, constituímos família, mas não podemos ter planos de saúde familiar, receber a visita da companheira quando estamos internadas, nossas companheiras não podem tomar decisão em caso de cirurgia ou tratamento intensivo de saúde, não podemos receber pensão em caso de morte da companheira ou em caso de separação quando há descendentes. Por isso, política para lésbicas é o casamento igualitário para todas as pessoas.

Dizendo tudo isso, atravessamos Copacabana ao som animado do trio elétrico, convidando todas as famílias para dançarem conosco na avenida, sorrindo e mostrando nosso orgulho a todas as pessoas que passeavam pelo calçadão, dialogando com a sociedade e mostrando nosso respeito a toda a comunidade e dizendo que tudo o que queremos é o direito de ser igual a todo mundo, como diz a Constituição e outros livros orientadores de atividades humanas – a Bíblia, por exemplo. (“Ama ao teu próximo como a ti mesmo”… não era assim?)

Em 2010, caminhamos com uma quantidade muito menor de pessoas na pista, mas todas as pessoas que estavam em Copacabana nos acompanharam, nos escutaram, nos viram e nos respeitaram. Paramos o som exatamente às seis da tarde, permitindo a abertura da pista aos automóveis sem causar nenhum transtorno, e ainda tivemos o apoio de moradoras e moradores.

Esse evento nos confirma: SEM ORGULHO NÃO HÁ VISIBILIDADE. SEM VISIBILIDADE NÃO HÁ CIDADANIA.
Obrigada, Copacabana! Obrigada, Rio de Janeiro!! Juntas e juntos, somos mais fortes! E VAMOS QUE VAMOS!

Queremos os mesmos direitos, com os mesmos nomes.

——————————————————————
SUDIM: Superintendência dos Direitos das Mulheres; SUPERDIR: Superintendência de Direitos Individuais, Coletivos e Difusos; SEASDH: Secretaria Estadual de Assistência Social e Direitos Humanos; órgãos do Governo do Estado do Rio de Janeiro.

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