“Por donde entramos, Jandirinha?”

Chegou Fernandinho, meu companheiro nessa aventura científica latinoamericana em Boston. Na verdade, é Sommerville. E na verdade, América Latina nesse caso se resume a Brasil, México, Argentina e El Salvador. Mas a aventura já se anunciava desde quando começamos a planejar essa viagem.

Primeiro, fizeram questão que viéssemos em julho. Definimos a semana de acordo com nossas agendas, eu e Fernando, e informamos as datas ideais. Disseram: OK, vamos ver as passagens. E um silêncio sepulcral se seguiu entre esse momento e o nosso desespero. No meio disso, mandaram perguntar se tínhamos licença internacional para dirigir automóveis, porque estavam tentando achar uma hospedagem pra gente. Ferando me perguntou: ei, Jandirinha, dónde piensan mandarnos? Uma semana antes do dia da viagem mandei uma mensagem assim: NEWS, PLEASE!!?? Aí a passagem já tava emitida, o hotel já estava reservado – em Waltham – e um carro com GPS já nos esperava no aeroporto de Boston. As coisas pareciam se encaixar, mas ainda assim tínhamos uma pulga atrás da orelha que nos perguntava coisas extremas do tipo: será que é gente do outro lado da corrente que quer sequestrar ativistas latino-americanos para roubar-lhes o cérebro?

Ah, vai… trata-se da Gringolândia, né gente, terra fadada a ser atacada por aliens, ser alvo de meteoros, é por onde sempre começa o fim do mundo… essas coisas.

Depois da minha saga pessoal regada a amartia para chegar do aeroporto de Boston até o hotel em Waltham, fiquei esperando meu companheiro de viagem, que chegou por volta das 9 da noite. Exausto e faminto.

Linda, a recepcionista. O nome dela é Linda. Como euzinha cheguei querendo matar um leão pra comer, e tomar toda a água fresca do planeta, perguntei se no hotel tinha cozinha, lanchonete, conveniência, qualquer coisa. A única coisa que tem são as tais máquinas de chips e coca-cola. Bleargh. Mas tem um hotel Westin bem pomposo aqui do lado, enorme, que conta com um restaurante que pode atender uma emergência – como era o caso. Esperei Fernando chegar e lá fomos nós.

Encontramos umas portas de vidro e nos metemos. Não tinha uma recepção, só um monte de sala de conferência. Entramos, corredor adentro, uma e outra sala, mais uma porta, nada de aparecer alguém. Estranho, muito estranho. Tudo lá abandonado, aceso… Saímos para dar a volta, afinal a entrada deve ser ali de frente pra pista. Praticamente demos a volta no hotel e nada de ter um acesso, calçadinha, trilha no gramado, sinal de entrada social, nada. Tinha lá em cima umas coisas que pareciam entradas. Então decidimos subir o gramado e meter-nos ali pelo meio daqueles arbustos, estão vendo? Pois é, tinha uns banquinhos tipo fumódromo (do centro de convenções, deve ser), uma piscina com gente dentro, mas a porta pra piscina estava fechada. Ao lado tinha uma outra porta, aberta, entramos. Saímos de novo no centro de convenções. Ah, fomos nos metendo por aqui, ali, até que chegamos a uns elevadores e pelo menos ali indicava o andar do restaurante. Ufa!

Mesa para dois? Sim. Sentamos. Vimos que era possível sentar do lado de fora, o que para duas pessoas tabagistas faz toda a diferença. Na América do Sul. Aqui em Masachussetts não faz nenhuma. Não é permitido fumar em nenhum restaurante que entrei até agora, só do lado de fora. E no caso do hotel, do lado de fora era lá na rua, saindo pela porta – aquela que ainda não sabíamos onde era. Tá, a gente pode esperar. E já que não podíamos fumar ali fora com os mosquitos, achamos melhor deixar os mosquitos se divertirem com o reino vegetal e voltarmos lá pra dentro, com o ar condicionado.

Na mesa ao lado da que o garçom – um costarriquenho cafuçú delícia – já tinha arrumado pra gente quando chegamos, estava sentado um senhor sozinho. Ouviu a “charla” hispânica e puxou conversa. É peruano, mas mora aqui nos Istêites desde bem pequeno. Em Orlando. Trabalha para uma empresa que está abrindo escritório por aqui e veio dar treinamento. Eu, que AMO o Peru, engatei no papo e lá pelas tantas perguntei se a migração da família tinha relação com o terrorismo dos anos 80 e 90. Ele se limitou a lamentar que o terrorismo agora esteja voltando, com esses dois últimos presidentes que trataram terroristas “con mucho cariño” (??) e que o Peru precisa de alguém como Fujimori.

FUJIMORI???

Foi a única reação que pude ter. Diz o Fernandinho que eu estava comendo, olhando o prato, e que nessa hora virei pra trás e que praticamente todo o restaurante (nós e a outra mesa ocupada…) ouviu meu espanto. Bem, ele fez brevemente sua defesa e foi o suficiente para não lho darmos mais nenhuma atenção.

O salmão com capim-limão e legumes estava bom. O hambúrguer do Fernandinho também estava gostoso. Tomamos nossa Estela Artois draft e voltamos pra dormir. O fujimorista saiu antes de nós.

Dia seguinte, no café da manhã, adivinha quem de diz, sorridente, um BOM DIA! bem à brasileira? Ai, meus sais… Ele está hospedado no mesmo hotel que a gente. A cada chegada ou saída lá vem ele tentando ser simpático. Fazer o quê? Continuo amando o Peru, mas nunca mais voltamos ao Westin e fugimos do fujimorista todas as outras vezes que o encontramos.

Moral da história: preciso controlar mais meus impulsos, já que nos próximos meses vou ouvir muita opinião contrária à minha.

Próximo capítulo: Todo domingo havia banda no coreto da pracinha de Waltham. No caso, era terça-feira.

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