Gentileza gera gentileza, ou como levar uns tapas no ônibus

A falácia carioca

A falácia carioca

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Tomei meu banho, vesti a roupa de trabalho e fui pegar o ônibus diário. Uso o antigo C-10, agora renumerado para 010, para fazer o trajeto casa-trabalho, todos os dias. É uma linha de bairro, circular, que atende muitos velhinhos e velhinhas do bairro de Fátima, quase nunca está lotado, os ônibus são pequenos e não tem cobrador. Vários deles levam um adesivo avisando que aquele carro foi dedetizado contra insetos e outras pragas. Logo que entrei, uma baratinha daquelas pequenas subia pela parede do ônibus, bem próxima à porta de entrada.

Já no final da Riachuelo, ouvi uma mulher perguntar ao filho se o sorvete estava bom, e logo depois um “ah, jogou no chão, não quer mais. Não pegue não, meu filho, que o chão está sujo”. Lembrei da barata, do calor, pensei no sorvete derretendo e nas pessoas pisando e espalhando aquela meleca. Olhei para trás, lá estava o finalzinho de uma casquinha, cheia do doce creme branco e marrom. O ônibus estava em movimento, pensei, quando parar ela vai recolher, né? Parou, nada. Mais uma parada e um passageiro deu sinal no ponto. Olhei para trás, lá estava ainda o cone, no mesmo lugar.

Olhei para a mulher, e discretamente pedi que recolhesse o sorvete. Ela olhou para mim com uma cara de incrédula. Seria isso mesmo que ela estava pensando?? Repeti: por favor, senhora, pode recolher o sorvete, para que o passageiro não pise e espalhe o sorvete? Ou pode juntar bichos dentro do ônibus. Qual não foi a resposta dela senão um sonoro “tá incomodada, então vem pegar”. Impaciente, mas ainda educada, levantei-me do estreito lugarzinho que me cabia e recolhi o sorvete. Coloquei no colo dela, de maneira que não escorresse. Mal me virei e senti o SPLASH no meu braço, já acompanhado de gritos de “tá louca?”, “abusada” e daí para baixo. Não acreditei. Pensei na bolsa que eu tinha acabado de arrumar, nem em sonho havia ali um lencinho, uma echarpe, um guardanapo, nada para me limpar.

Respirei, fiquei pensando em várias coisas: na educação que ela recebeu, coitada, e na que está dando àquela criança de uns dois anos que a acompanha. Pobre criança. Viverá entre baratas, ratos e vermes? Dificilmente, creio. Ele tava bem limpinho e ela, apesar de tudo, também tinha uma aparência limpa. Fiquei imaginando, mas nem quis olhar, a sujeira que – agora sim – aquele SPASH deve ter causado no ônibus – e que venham as baratas!

Mas o carioca tá acostumado a conviver com o lixo, né? Eu, a forasteira, é que estou errada. Afinal, "não pago as contas dela para dizer o que ela tem ou não que fazer", né.

Chegou meu ponto, dei sinal. Ela estava exatamente atrás de mim. Deu vontade – muita mesmo – de pisar bem forte no pé dela, mas ela tirou antes, e eu sou fina. Deu vontade de limpar meu braço nela, e a posição era favorável. Mas não seria de bom tom, e não ia me igualar àquela iguana gigante. Ela se encolheu quando passei. Perguntei se ela havia ficado com medo de… eu ia dizer de eu sujá-la como ela fez comigo. Obviamente que a “lady” não me deixou terminar a frase e soltou um “medo de você? é ruim, hein!”. Minha educação desapareceu num instante, e levei o braço ao dela, para que ela ficasse com a meleca do sorvete do filho.

PLÁ, PLÁ, PLÁ! Não só ela partiu para cima de mim como disse que ia chamar a polícia (!!!). Levantou-se e desferiu mais alguns tapas no meu braço, nas minhas costas. Choquei. Um homem veio dos fundos para me tirar de perto dela e ao chegar na porta comigo, disse: a senhora, também, já vinha criando caso desde lá atrás… Falei “mas moço, a sujeira no ônibus…” e ele “ué, mas o que é que tem?” O que eu sou? Uma OTÁRIA, óbvio. O-T-Á-R-I-A, assim com um O bem grande e redondo bem no meio da minha cara, estampado.

Dilema: numa próxima vez, deixo a sujeira no meio do ônibus, piso em cima e ajudo a espalhar? Grito no meio do ônibus que a mulher é uma porca, imagine como deve ser a casa dela, coisas do tipo? Faço nada e fico com dor de estômago por ver o serviço público que me custa caro – no imposto e na passagem – ser tratado com descaso e dilapidado assim, à frente dos meus olhos? Que fique dito: revidar com violência, especialmente na frente de crianças, jamais será uma opção para mim, a menos que represente risco real à minha integridade, ou à de meus filhos e crias.

Novo Campeche, Florianópolis

Cidade Maravilhosa... cada povo tem o governo que merece?

Miniflashback: certa vez, Marina Silva (aquela que eu admirei um dia) foi vistar Santa Catarina, e encontrou-se com o governador Espiridião Amim em Florianópolis. Opositores partidários, trocavam ali algumas amabilidades quando ele perguntou a ela: viu como minha cidade está linda, Senadora? Ao que ela respondeu, naquela tranquilidade que lhe é peculiar: sim, governador, especialmente naquilo que Deus cuida. Aqui no Rio é assim. O Rio de Janeiro continua lindo, naquilo que é de “Deus” cuidar – a natureza, paisagem, a silhueta da cidade com suas formas sinuosas… Mas é cada dia mais podre na cultura local, na micropolítica local, nas relações humanas. É uma pena.

Definitivamente, não pertenço a esse lugar.

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5 Respostas to “Gentileza gera gentileza, ou como levar uns tapas no ônibus”

  1. Fatima Cardoso Says:

    Jan, entendo perfeitamente como vc se sente, já passei por situação parecida com a do seu relato. Tudo isso somente reforça a minha certeza de que a saída para o nosso país pode ter vários caminhos mas todos eles passam pela EDUCAÇÃO.

  2. Poli Gomes Says:

    É, vizinha, triste mesmo… não pertencemos a esse lugar mesmo! Então, o mais prudente é identificar os código e tentar conviver com eles, sem se deixar abalar, claro! Eu costumo me lembrar do ditado “jamais discuta com um ignorante, pois as pessoas podem não saber a diferença”

    • jandirainbow Says:

      Pois essa aí não sabia mesmo. Pior: ela deve ser minha fucking vizinha, e provavelmente terei que cruzar com ela algumas vezes mais nessa timelife.

  3. Valéria Luz (@ValeriaKarioka) Says:

    Eu sou carioca e concordo com suas colocações, a grande maioria do povo está acostumado a jogar lixo para todo lado mesmo, mas não seja generalista, minha família por exemplo sempre esteve acostumada a não jogar lixo em locais públicos, e meus “desbravadores”, (crianças com que lidei durante 14 anos de voluntariado no RJ), aprenderam desde pequenos a não praticar esse tipo de comportamento. Portanto, não julgue a todos por alguns.


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