Será que no Japão todo mundo é homossexual? (ou SuceSSo, ProgreSSo, garfo, faca e “hashis”)

Acabei de ver um vídeo muito lindo que a Dànskï postou no Facebook a noite passada. É um filme publicitário da gigante malaia de óleo e gás, Petronas, produzido em 2007 e mega premiado até hoje. Foi “requentado” no Brasil no último dia 13 de agosto, data que nos últimos anos começa a ser explorada pelo comércio como o “dia dos solteiros” em terras brasilis.

O vídeo mostra um garoto muito meigo e carinhoso sendo perguntado por uma mulher (em inglês) se ele gosta de alguém, se tem namorada, essas coisas – ao que ele responde positivamente, e a mulher vai fazendo a investigação. Ele revela que gosta de uma colega de classe, uma menina de quem ele não pode gostar, mas gosta porque usa brincos e rabo-de-cavalo. Perguntado se ela sabe dessa, digamos, admiração, ele responde que não, que aliás ele não gostaria que o mundo inteiro soubesse. Por que não? “Por que o mundo inteiro iria rir de mim, já que ela não gosta de mim”. Logo em seguida a menina aparece em cena dizendo que o melhor amigo dela é ele, e quando perguntam se ela tem namorado ela diz que sim, e que é justamente ele. Ele, muito tímido, agarra a mão dela e os dois se afastam da câmera pelo corredor da escola.

Fofo. Simplesmente lindo. Poderia parar por aí, mas o marketing institucional jogou o seguinte mote: “Nossas crianças não distinguem cores. Devemos tirar isso delas?”. Veja.

Genial, ahn?
(Atualização do post em 7/9/10: leia abaixo o comentário de Sonia Corrêa para entender melhor o contexto desse lindo casal.)

Como minha onda não é vender petróleo, mas tentar chegar a uma situação social em que haja justiça de gênero, me lembrei de um outro vídeo, uma outra ideia igualmente genial, mas que não chegou a ser veiculada na grande mídia. Talvez porque não venda petróleo, talvez porque seja no Brasil, talvezes… O filme foi produzido por uma agência de publicidade, segundo ouvi dizer foi um trabalho voluntário para uma campanha do Governo do Estado do Rio de Janeiro pelo fim da discriminação por orientação (homo)sexual. Mas no fim das contas, aparece no canto direito a logo do Grupo Arco-Íris… bem, tem gente que diz que é a mesma coisa, mas deixa pra lá que isso é coisa que eu nunca entendi em terras cariocas.

O mote do filme era que todas as letras do alfabeto precisam de outras para formar palavras, e que, em certos casos, a união de duas iguais é necessária para alcançar certos resultados. Por exemplo: neceSSária, essa palavra não seria poSSível no idioma brasileiro se duas letras iguais não estiveSSem juntas. Assim como também não haveria o progreSSo, a cOOperação, e a comprEEnsão.

Não é?

Na semana passada estive no SiSeJuFe para um evento de homenagem à visibilidade lésbica, organizado pela companheira ativista Virgínia Figueiredo. Avalio que esse evento ficou no mesmo nível que a II Caminhada de Lésbicas e Bissexuais do Rio de Janeiro, em termos de alcançar a visibilidade no sentido de dialogar com a sociedade. Há mais ou menos um ano comecei a questionar o sentido de lutar por “visibilidade”. Cheguei a uma conclusão (pelo menos temporária): queremos visibilidade para conquistar o direito a sermos invisíveis, ou seja, para não sermos apontadas ou discriminadas pelo fato de nos relacionarmos com essa ou aquela pessoa. No caso das lésbicas, por gostarmos de mulheres e não estarmos a serviço do prazer dos homens. Ih… tem gente que não faz ideia de como isso é “grave” na nossa sociedade…

Naquela noite, além de algumas de nós, lésbicas (melhor, Marian*?), havia uma meia dúzia de umas dez pessoas do sindicato ouvindo o que tínhamos a dizer. Eu não estava na mesa, mas a própria Virgínia inscreveu meu nome, antes de eu manifestar o desejo, para falar logo depois que as companheiras meseiras terminassem suas exposições. Ou seja, ela encabeçou a lista de inscrições com meu nome, o que eu acatei de bom grado, queria mesmo comentar trechos das falas das minhas queridas companheiras que naquela noite ocupavam os lugares de destaque daquele auditório: salve, salve Paula Theodoro, Marcelle Esteves e Virgínia Figueiredo!

Uma das coisas era o caso das lésbicas “femme”, ou as “femininas”, aquelas que não dão muita “pinta” de sapas, não são masculinizadas, não usam cabelo curto, bermudões, bonés, não fazem o tipo caminhoneira, fancha, butch, vocês já entenderam. As “pintosas”, diziam as companheiras, não têm como passar desapercebidas no emprego, na escola e outros espaços da vida cotidiana; são facilmente identificadas e na maioria dos casos discriminadas. As “femininas”, diziam, passam desapercebidas, a não ser que demonstrem alguma atitude que não condiga com o papel feminino, que falem grosso, que não aceitem uma ou outra situação em que se espera um comportamento passivo das mulheres. Bem… acho que não precisa ser lésbica para isso acontecer.

Mas (o)usei o microfone para lembrar que mesmo as “femme” não passam desapercebidas coisíssima nenhuma. Um dos lugares-comum da produção pornô para homens é justamente o sexo “lésbico”, com duplas de gostosas de unhas gigantescas exibindo um sexo plástico para o bel-prazer dos rapazes. E outro muito recorrente é o comentário inconveniente dos caras quando veem duas meninas bonitas (ou seja, nos padrões de beleza da globo, da marie claire, da nova, da capricho, da playboy…) juntas, de mãos dadas, abraçadas ou se beijando: “aí, gostosas, deixa eu entrar no meio de vocês duas…”. Ou seja, só passam desapercebidas se estiverem bem invisíveis dentro do armário. Mas aí também não precisa ser lésbica. Soltei a seguinte cena lá no auditório do SISEJUFE: alguém olha duas mocinhas juntas e diz “pôxa, duas mulheres bonitas, vistosas, estão ficando uma com a outra, como assim!? Deve ter alguma coisa errada aí, né?” No auditório, as cabecinhas dos poucos homens presentes balançavam concordanco com a parte “deve ter alguma coisa errada aí, né?”. Quebrei com “não, nada de errado, é assim mesmo, tem gente que gosta de homem, tem gente que não gosta”.

Minha amiga e também ativista lésbica Heliana Hemetério diz uma coisa com que eu concordo profundamente: em um mundo criado por homens e para servir aos homens, o simples fato de uma mulher não precisar do falo para ter prazer dá um nó na cabeça de quem nunca pensou, digamos, “fora da caixa”, a partir de uma perspectiva menos óbvia do que aquela imposta pelo modelo católico-cristão-heterorientado-conservador – não necessariamente nessa ordem… Ela vai além e lembra que os gays servem ao desejo masculino; as travestis e mulheres transexuais, grande parte das vezes, servem ao desejo masculino; as pessoas bissexuais, em algum momento, também; as lésbicas não.

De minha parte, considero como “masculino”, nesse caso, não apenas os homens biológicos, mas todas as pessoas que se utilizam de algum “poder” para submeter outras a todo e qualquer tipo de discriminação negativa. Essa semana, em meu perfil no Facebook, citei um trecho do livro Nações Unidas, População e Gênero: homens em perspectiva, tese de doutorado de Margareth Arilha, publicado pela editora InHouse no mês passado. Diz o seguinte “(…) o gênero é uma das primeiras maneiras de dar significado às relações de poder, ou (…) gênero é um primeiro campo por meio do qual o poder é articulado.” Voltemos ao primeiro vídeo que mostrei nesse post. Pensemos na “guerra ao terror” dos EUA no Iraque, nos conflitos entre Israel e o povo palestino, nos impedimentos de relacionamento entre castas na Índia, no rechaço da família da moça que apresenta um namorado “bugre” à família, nos enormes muros sociais que isolam a classe média da favela – Romeu e Julieta, se quiserem – nos jogadores de futebol que, negros e pobres, viram ricaços negros que pegam loiras (na porrada, inclusive), a lésbica fancha que desce o braço na companheira porque chegou em casa e a comida não estava pronta… e assim por diante. Tudo são jogos de poder onde um sujeito quer sempre mostrar a superioridade sobre o outro.

Mas tenho que dar o braço a torcer, deixar de discurso complexo e reconhecer: as lésbicas somos marginalizadas, violentadas e mortas, em última análise, pelo fato de não servirmos ao modelo em que o homem tudo pode e a mulher está para servi-lo. Acho isso também. Discurso radical? Pode ser, mas é aí mesmo que mora o problema: na raiz da nossa sociedade.

Sociedade, aliás, que (a)fundada pelo bispado que para cá veio com o Sr. Cabral (eita nomezinho pra se repetir catastroficamente na nossa história, minhas deusas!!), depois de estabelecer que a família seria uma instituição coletiva para acumulação de bens, dessexualizar as crianças para que os corpos chegassem ilibados ao matrimônio, pois assim haveria a certeza de que os “rebentos” seriam legítimos espécimes da linhagem em questão, de modo a não dividir o capital acumulado com bastardos, hoje usa a metáfora do garfo-e-faca para desqualificar as relações amorosas/sexuais entre duas pessoas de mesmo sexo biológico.  Ai, ai, nem Jesus, no tempo dele, cometia uma gafe dessas, né…  Ora, já faz muito tempo que o sexo deixou de ser praticado somente para a reprodução, na maioria das culturas do mundo – isso esteve de moda na Idade Média, já está “demodê”! Já aprovamos a lei do divórcio, adotamos as pílulas de hormônio como método contraceptivo, o DIU é política pública, São Paulo já distribui a pílula do dia seguinte, camisinhas são distribuidas em postos de saúde pelo Estado, que também oferece cirurgias de readequação genital para transexais. E ainda tem gente dizendo por aí que mulher com mulher, homem com homem não pode porque ninguém come com dois garfos ou duas facas. Bizarro, né? Falta pensar só um pouquinho “fora da caixa” e deixar o pensamento passear um pouquinho mais pro leste. Por exemplo, será que no Japão, onde a comida se come com dois pauzinhos iguais, todo mundo é homossexual?**

Eu diria que é melhor começar a mudar o discurso. Nossas crianças, por aqui também, a cada dia mais conectadas, já entendem que esse discurso não cola. E afinal, se elas já não distinguem cores, devemos tirar isso delas? Acho que não.

Olha de novo: não existem brancos, não existem amarelos, não existem negros: somos todos arco-íris.

Ulisses Tavares

Fica a dica.

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*A companhira Marian fez uma crítica ao post anterior, dizendo que “Acho que o verdadeiro preconceito e até violência serão derrubadas, o dia que troquemos o elas por nós.” Penso eu que faz sentido, sim, que talvez isso não resolva tudo, mas é uma parte muito importante da equação.  Acato a crítica.

** Capturei essa “sacada” da companheira Rosa Posa, do grupo Aireana de Assunção, Paraguai, em um de nossos encontros pelas américas. Gracias, Rosa!

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Jan querida,

Há uma coisa nesse video coisa que nem você nem niguem parece ter percebido bem no Brasil.

O menino é malaio e a menina é chinesa… Para nós, como ela e ele tem olhinhos rasgados, fica sendo “tudo chinês”, aliás é isso que diz o título da matéria.

Não é bem assim: na Malásia, as comunidades malaia, chinesa e indiana vivem vidas “separadas”. São tratadas de maneira muito diferente pelo estado que dá mais benefícios aos malaios, ou seja uma política de ação afirmativa de base étnico religiosa que entre outras coisas discrimina e estigmatiza a comunidade indiana (há vários líderes da comunidade indiana que lutam contra esse estado de coisa presos por razões políticas).

Ou seja, na Malásia implementa-se, de fato, desde a idependência nos anos 1960, o tal “governo das diferenças” essencialistas de que fala Franklin Gil no texto apresentado no Diálogo SPW Latino Americano. É isso que torna o vídeo tão contudente. As duas crianças que nele aparecem estão “impedidas” pelas regras do governo da diferença de se amarem e sobretudo de se casarem. Não que não existam casamentos inter-étnicos, mas são raros e socialmente condenados, assim como também acontece na Índia no caso de casamentos entre castas e pessoas de religiões diferentes (hindus com mulçumanas, mulçumanas com cristãos, etc). Vale lembrar que as propostas de tratamento diferenciados de minorias tampouco está aussente no debate brasileiro, inclusive do debate sobre política sexual.

Finalmente, mas não menos importante, é brutalmente irônico que esse lindo spot de TV – que questiona a lógica de diferenciação social e política produzida por um estado nacional – seja também propaganda de uma empresa petroleira. No mundo inteiro, as empresas petroleiras infringem demandas justas de direitos que se constroem com base em percepções diferenciadas em relação ao significado dos recursos naturais, em nome do lucro. Basta buscar no google informação sobre o que se passa no delta no Níger, ou melhor ainda sobre um protesto recente dos Maoris contra um acordo assinado entre o governo da Nova Zelândia e a Petrobrás para prospecção de petróleo em áreas que são por eles consioderadas seus territórios ancestrais.

Vivemos num mundo muito complicado!

Sonia

(se quiser pode postar esse comentário)

Por e-mail, 7/9/2010.

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