Terra nua

Acabo de deixar Brasília rumo ao Rio, e estou sentada à janela do avião. Fazia meses que eu não viajava com céu limpo, livre de chuvas e nuvens pesadas, turbulências. O sono vem, mas ao decolar, olho para baixo e levo um susto. Estranho a quantidade de circunferências tatuadas no solo do meu cerrado, plantações de soja e outras commodities.

Anos atrás, voltando de São Paulo a Brasília, estranharam-me também as circunferências. Era tempo de “Sinais”, e eu ria fazendo piadinhas com o filme. O motivo do estranhamento era a novidade daqueles desenhos tão perfeitos, vistos de cima. Por que redondo? Que tal tecnologia será essa?, eu me perguntava. Uma aqui, outra acolá, deviam ser novidade, perdidas no meio do cerrado ralo e seco.

Hoje, a tristeza bate. Saindo de Brasília elas dominam o mosaico lá embaixo, composto de enormes círculos interligados por linhas de terra – que devem ser caminho para trator ou algo do tipo – envoltos por áreas igualmente devastadas.

Estamos nos primeiros dias de fevereiro. Precisamente, dia dois de fevereiro, dia de Iemanjá. Tempo de flores no cerrado, colorido de amarelos, roxos, rosas, brancos, vermelhos e verdes… O céu aqui embaixo de mim está flocado de daquelas nuvens velhas conhecidas que pintam o céu de Brasília. Por baixo delas, no entanto, tudo verde puro, ton sur ton.

Tive medo de não ver as árvores que tanto aliviam a sensação de calor seco quando passeamos pelo cerrado. Ah! Ali estão. Consigo ver filetes de mata acompanhando o curso dos velhos rios. Velhos, frágeis, resistentes sobreviventes da morte que se espalha em campos de soja e gado “tipo exportação”. Será mesmo que esses homens pensam ser suficiente dar-lhos apenas essa estreita faixa de sombra para que não sequem e morram de vez? Se olhassem daqui, se reparassem nesse sol que brilha no céu ampla e vastamente, escalda a terra e seca o ar do cerrado, saberiam que os rios têm muito mais sede do queos fios dágua que eles deixaram podem saciar.

Agora vejo! Alguém salvou um pedacinho de mata lá embaixo. Deve ser aquele “percentual” obrigatório de preservação ambiental. Ocupa mais ou menos (mais pra menos que pra mais) um oitavo da área da janela do avião, na minha perspectiva, num ângulo próximo de 45º abaixo de mim. Já devemos estar a uns 15 minutos de viagem.

Quanta aridez. Quanta avidez! Quanta avareza!

Que cabeça tão seca pode ter idealizado tamanha destruição?

Vamos já a cerca de 35 minutos de viagem. Devemos estar sobrevoando Minas Gerais. A terra que se vê é mais clara, esbranquiçada, e o terreno mais acidentado. Morros, ranhuras na terra engilhada. Até vejo algo que se parece a um cânion. Por entre as frestas das montanhas, verdinhos mais escuros denunciam que a tecnologia dos homens de cabeça seca ainda não aprenderam a plantar soja e gado nas encostas dessas serras. UFA! Mas basta aparecer uma planiciezinha para virem junto as placas de cores homogêneas. Verde escuro, verde mais claro, marrom, amarelo.

A terra nua, arrasada, estruprada. E o povo passa fome. E o mundo tem sede.

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Uma resposta to “Terra nua”

  1. Terra nua « Jandirainbow – nua Says:

    […] https://jandirainbow.wordpress.com/2010/02/03/terra-nua/Terra nua. fevereiro 3, 2010 — jandirainbow. Acabo de deixar Brasília rumo ao Rio, e estou […]


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