Três uvas, duas loucas

Passei no mercado antes do avião pousar. No vinhedo, tive dúvida sobre que uva combinaria melhor com o meu menu: folhinhas verdes, cogumelos e outras proteínas.  Moscatéis lutridos insistiram por alguns segundos em ocupar o meu campo visual, ávidos por me acompanharem até a casa. Mas não eram apetecíveis para minha companhia.

Entre a sempre bem-vinda Chardonnay e o úmido prosecco, convidei pra casa as três deliciosas uvas, que juntas sabem bem como acompanhar harmonicamente, nas noites, o intenso e raro prazer. Eram a Cabernet, a Sauvignon e a Merlot. A sempre confortável maciez no leito da língua, combinada com uma leve acidez no final, me têm por costume embalar suaves prosas e versos.

Avião no pátio, bagagem desembarcada. Uma mulher substantiva e predicada. A mala aberta no mangue do quarto e as uvas bailando pelos lábios de duas loucas. Os corpos já iam se entregando ao cansaço do do trabalho sem intervalo quando se deram conta da agradável companhia. O tinto então preencheu não só a boca e o paladar. Visão e tato vieram pra festa, trazendo o cheiro guache das tintas.

Laura Bacellar faz retrospectiva de 2009

Faz tempo que não apareço por aqui, eu sei. Andei randomizando um bocado ultimamente, e o blog ficou meio deixado de lado. Até tentei começar um no Dykerama, mas não consegui escrever muito ultimamente. Aqui de onde me encontro, achei a retrospectiva que Laura Bacellar escreveu. Adorei. Há bastante mais para contabilizar, mas aí seria um almanaque. Acho importante reverberar as informações que ela recolheu, e então aqui está.

Leia sem moderação.

Retrospectiva 2009

Laura Bacellar relembra os fatos mais marcantes deste ano que termina

2009 foi um ano interessante para nós homossexuais. Vimos grandes sucessos em algumas áreas e inexplicáveis recuos em outras.

Um dos movimentos que me deixou feliz foi a continuação da onda de aceitação da diversidade pela sociedade brasileira. Em avanço tímido mas sempre na mesma direção, vemos cada vez mais paradas lgbt em nosso país, que aliás nesse quesito detém o recorde no Guiness de nação com mais paradas do orgulho do mundo. Em 2009 foram mais de 170!

Eu acho isso incrível, ainda mais porque fui das que suaram e se esforçaram horrores para que a parada de São Paulo crescesse e aparecesse. Quem sonharia, dez anos atrás, em ver paradas acontecendo em lugares distantes das grandes metrópoles como São José do Ribamar (MA), Pacaraima (RR), Cruz das Almas (BA), Formosa (GO) e por aí vai? É uma delícia perceber que, não importando as igrejas, os políticos retrógrados, os discursos preconceituosos, o povo brasileiro vai cada vez mais investindo na visibilidade das minorias e no reconhecimento da diversidade sexual, em todos os ricões desse nosso país enorme.

Na mesma toada vãos os juízes. Apesar de as leis federais serem sistematicamente colocadas na geladeira, cada vez mais a Justiça brasileira concede a transgêneros o direito de modificar o nome nos documentos; permite a casais homossexuais adotarem filhos; e reconhece a união de pessoas do mesmo sexo como uma entidade familiar, com os mesmos direitos que casais heterossexuais.

O retrocesso óbvio é que os políticos parecem não perceber isso e insistem em travar o reconhecimento oficial, legal, das mudanças que já se operam na sociedade, tendo o apoio dos setores mais reacionários do país. Basta vermos o projeto de lei da Câmara 122/06, que considera crime a discriminação por orientação sexual e provocou uma reação organizada dos religiosos, com uma chuva de mentiras sobre a “falta de liberdade de expressão” (como se ofender alguém fosse exercício de cidadania) e se arrasta no Senado. Talvez faça companhia ao projeto de lei de união civil, escondido sabe-se lá em qual gaveta política…

Sim, sim, alguém vai dizer que o Brasil detém também o recorde de homofobia, mas não é assim que interpreto a pesquisa encomendada pelo MEC sobre ações discriminatórias no âmbito escolar, lançada este ano. Fica claro que há sistemática discriminação de homossexuais, porém não maior do que de negros, pobres, deficientes físicos e mulheres! Ou seja, vivemos num país preconceituoso, que precisa passar por uma revisão radical de posturas em relação a todo mundo que não seja homem branco rico heterossexual. Mesmo assim, percebo mais mudanças positivas do que negativas.

O ano foi interessante também em nossos vizinhos da América Latina: o Chile, espantosamente, dá passos para o reconhecimento da união civil entre pessoas do mesmo sexo, assim como a Argentina, que já tem leis específicas passadas em duas regiões. A Igreja católica faz o que pode e o que não pode para travar as mudanças, tendo conseguido impedir o primeiro casamento gay argentino, marcado para dezembro agora em Buenos Aires, mas parece que elas são inexoráveis. Quem diria que até mesmo em locais não especialmente conhecidos pela visibilidade das minorias, como a Colômbia, veríamos os direitos de casais do mesmo sexo legalizados?

Nosso grande irmão lá do Norte também passa pelas mesmas dificuldades de mudança e reação, avanço e resistência. O casamento gay foi aceito na Califórnia e no Maine no ano passado e depois revogado, para tristeza geral dos ativistas do mundo, que se organizaramm em campanhas ferozes este ano, como a NOH8. Mas uma lésbica assumida, Annise Parker, acaba de ser eleita prefeita de Houston, Texas, a quarta maior cidade dos EUA.

No lado também bom mundial vimos Milk, um filme lançado em Hollywood com diretor famoso – Gus van Sant – e astros no elenco – como Sean Penn –, falar de um gay assumido e ativista, ser assistido por milhões de expectadores e dar a Penn o Oscar de melhor ator. Aos poucos torna-se chique, e não mais suicida, abordar temáticas gays de maneira clara e simpatizante no cinemão americano.

A televisão norte-americana viu também o fim glorioso de The L Word este ano, série pioneira ao colocar lésbicas assumidas, bonitas e sensuais como protagonistas. Inesperado sucesso do canal Showtime, o seriado durou seis temporadas, projetou várias de suas atrizes para a fama, provocou histeria entre fãs das mais variadas nacionalidades (inclusive brasileiras) e mostrou que a televisão comporta projetos de sucesso abertos para a diversidade. Fica a óbvia pergunta: onde está o L Word brasileiro?

Aqui no Brasil vimos também a Editora Malagueta – eu não podia deixar de mencionar, podia? – lançar o primeiro romance de temática lésbica rural de nossas letras, o Shangrilá de Marina Porteclis, e promover a primeira conversa lésbica literária de Paraty, durante a Off Flip.

Como eu disse, apesar de ter sido um ano difícil e conturbado, parece ter caminhado mais na direção das luzes do que das trevas.

Você concorda?

* Laura Bacellar é editora de livros, atualmente responsável, juntamente com um grupo de mulheres, pela primeira editora lésbica do Brasil, http://www.editoramalagueta.com.br.

A hipocrisia sobre o aborto no Brasil e a morte de Neide Mota

 

01/12/2009

Editorial CCR

 

Conheci Neide Mota pessoalmente em 2008, durante visita feita a Campo Grande por um grupo de mulheres feministas que visavam compreender a situação crítica que envolvia a invasão da Clínica de Planejamento Familiar de Campo Grande – da qual a médica anestesista era proprietária – pela polícia local. Tal ação ocorreu após veiculação de matéria pela Rede Globo local e demanda encaminhada ao Ministério Público por Deputados Federais, especialmente Luiz Bassuma, líder da Frente Parlamentar em Defesa da Vida – contra o Aborto e membro do Movimento Brasil sem Aborto, punido por seu ex-partido, o PT. O caso envolveu a médica anestesista, outros profissionais, e muitas mulheres. Milhares de mulheres. Cerca de 10.000, que por mais de 20 anos recorreram a este espaço para solucionar o desejo de não ter filhos. Criticada por muitos e muitas, Neide era uma mulher, no mínimo, controversa e ousada. Afrontava o poder público, as autoridades locais, denunciava a hipocrisia de instituições e de personagens que, segundo ela mesma contava, não se furtavam a levar mulheres jovens para sua clínica e pagar por abortos que os livrariam de situações públicas vexatórias, e/ou de compromissos éticos, morais e financeiros futuros. No mundo público a crítica ao direito de decidir. No mundo privado, o pagamento em cash.

 

O caso de Neide Mota e de sua clínica de planejamento familiar faz pensar. Neide, entre o Estado e o mercado, chegou a ser procurada para servir como referência e parceria para a realização de abortos legais pelo SUS, o que a tiraria da clandestinidade e, de outro lado, estar envolvida e denunciar o desrespeito aos direitos humanos cometidos naquela cidade. A invasão de sua clínica suscitou perguntas que até o momento não estão totalmente respondidas: por que a visita sorrateira da Rede Globo àquela clínica naquele momento? Como foi possível tanta rapidez entre o programa televisivo e a demanda de ação por parte do deputado Bassuma em acionar o Ministério Público para denunciá-la?? Por que tamanha exposição do processo que envolvia tantas mulheres, significando uma moderna degola de mulheres em praça pública? Como justificar a falta de disposição dos Conselhos Éticos de Medicina em mostrar irregularidades do poder judiciário ao não preservar a confidencialidade dos prontuários médicos recolhidos na clínica pela Polícia? Como esquecer que o poder Judiciário deixou durante algum tempo estes processos ao sabor do vento, sendo manuseados livremente, tendo fichas eliminadas? Como esquecer que algumas mulheres foram “escolhidas” para servirem como “bois de piranha” e assim deixarem o campo livre para a construção do plano maior de aniquilamento da imagem pública de Neide Mota? Como justificar o recuo da Justiça e do Direito neste universo que criminaliza e mata mulheres?

 

Tudo indicava desde aquele momento que o que se desejava era uma ação exemplar. E foi assim, do começo ao fim. A morte de Neide Mota, capítulo final de outra novela da vida, vai ao ar praticamente ao mesmo tempo em que a rede Globo circula um novo sermão eletrônico, ou seja, capítulos de sua novela das 8 que incentivam a culpabilização de todas/os as/os telespectadores que chegarem a pensar no aborto como um direito. Parece um jogo metafórico e ideológico dos mais potentes.

 

Novas formas discursivas entram em ação e se potencializam. Mídia, setores conservadores da Igreja Católica e de outras religiões dando as mãos, numa aliança “fraterna” e inequívoca, para impedir os avanços da autonomia sexual e reprodutiva, da liberdade e da solidariedade da população brasileira, particularmente de todas as mulheres.

 

Mas estão enganados senhores. As mortes de Neide e outras mulheres que sofrem com seus abortos clandestinos, só trarão maior visibilidade às injustiças que se cometem neste país. Segundo estimativa da Organização Mundial de Saúde, mais de trinta por cento das gravidezes no País terminam em abortamento, de modo que, anualmente, ocorrem aproximadamente um milhão e quatrocentos abortamentos inseguros – clandestinos ou espontâneos -, o que representa 3,7 ocorrências para cada cem mulheres de quinze a quarenta e nove anos. De acordo com o Ministério da Saúde, 250 mil é o número médio de mulheres internadas anualmente em hospitais da rede pública de saúde para fazerem curetagem na região do útero após um aborto inseguro. A maioria delas é jovem, pobre e negra. A prática de abortamentos em condições clandestinas no Brasil tornou-se um grave problema de saúde pública, responsável pela quinta causa de mortalidade no país, a primeira causa dessas mortes em Salvador, desde 1990, e a terceira causa em São Paulo. O abortamento provoca mais mortes de mulheres negras (pardas e pretas) que de mulheres brancas, e seu peso, como causa de mortalidade, é maior nas faixas etárias das meninas até quinze anos e das mulheres entre trinta e trinta e nove anos.

 

Neide possivelmente iria a Júri Popular nos próximos meses, e quem sabe, talvez chegasse a usar de sua tribuna para falar, uma vez mais. Falar da hipocrisia nacional quando se trata de direitos reprodutivos, que a uns e umas tudo permite, e a outras, cala, mente e mata.

 

Margareth Arilha

Diretora Executiva da CCR

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