Embelezamento e feminilidade: liberdade ou mutilação?

mulherescompintoOutro dia encontrei um texto interessante chamado “Você vendeu o feminismo, véio”, no blog “Mulheres com Pinto” e compartilhei na lista de um grupo de amigas minhas lá de Brasilia. Essa lista foi criada para ser o equivalente feminino da lista dos nossos amigos, exclusiva para meninos, muitos dos quais viraram maridos de algumas das amigas dessa lista, e outras amigas entraram na lista por terem se casado ou estarem namorando com alguns deles. Enfim… nem vou comentar a heteronormatividade desse processo.

Na sua maioria, as mensagens contêm piadas, dicas de segurança, uma ou outra coisa de moda e embelezamento… e às vezes vem uma discussão interessante, especialmente (por se tratar de uma lista só de mulheres) quando vem algo ligado ao binarismo de gênero e as desigualdades nas relações sociais motivadas por esse binarismo.

Pois bem. Postei lá o texto da C. June e a discussão rolou! Foi interessante ver a diversidade de ideias, os argumentos. Aí a Júlia mandou esse texto abaixo como contribuição ao debate. De precioso que achei, compartilho com vocês todas!

Boa leitura!

Embelezamento e feminilidade: liberdade ou mutilação?

Julia Chamusca Chagas – Bolsista do PET/PSI

“Para ficar desnudo é preciso estar ‘vestido’ pela magreza”
(Oliveira, 2004, p.105)

A partir do século XVIII, o pensamento binário resultante da influência cartesiana marcou profundamente a produção de conhecimento. O dualismo mente-corpo, essa tendência dicotomizante do pensamento, influenciou a forma como as pessoas se concebiam e levou a uma substituição do modelo de sexo único vigente por um modelo binário baseado em oposições radicais. Dessa forma, a mulher passou a ser definida em oposição direta ao homem e apenas a divisão dos seres humanos em dois sexos passou a ser aceita como natural (Laqueur, 2001).

Baseado nessa dicotomia, o conceito de gênero surge como a construção social e histórica dos sexos, apontando para a significação cultural sobre esses dois corpos sexuados possíveis. O sexo seria a faceta biológica, objetiva e imutável, enquanto o gênero algo adquirido, derivado de uma representação dos indivíduos e estabelecido pelas relações sociais (Louro, 1995). Laqueur, entretanto, aponta para o fato de que também o sexo é construído e contextual porque é afetado pelas práticas de gênero.

Homens e mulheres são ensinados desde criança que são diferentes e que devem se portar de maneiras marcadamente distintas. Cada um deve se submeter a determinadas exigências sociais que acabam por diferenciar as experiências de cada um. Estar em cima de um salto alto ou de um tênis confortável, por exemplo, influencia a forma como a pessoa anda, a sua postura e a maneira como ela se coloca perante as pessoas. Essas imposições são tão sutis e tão precoces que, freqüentemente, passam desapercebidas e acabam por ser naturalizadas. É como se as pessoas reproduzissem essas regras sem pensar sobre o seu significado. Elas são, entretanto, atos de gênero que influenciam a dicotomia sexual e contribuem para a concepção de sexo biológico. São práticas repetidas de diferenciação sexual que criam a ilusão de uma divisão natural dos sexos (Oliveira, 2004).

A mulher, em especial, passa diariamente por práticas de higiene e embelezamento que acentuam essas diferenças sexuais: remoção de pêlos, cuidados com a pele e cabelo, maquiagem… Aos poucos a sociedade nos mostra “quais roupas, corpo, alimentos, expressão facial, movimentos e comportamentos são requeridos” para que possamos nos encaixar na nossa categoria e parecermos normais (Oliveira, p.74). Dentro desse contexto, a beleza se tornou fundamental para a construção da feminilidade. Uma mulher que não segue as exigências, não cuida do seu corpo da forma como deveria, é repreendida e desmerecida por isso. Conseqüentemente, muitas mulheres se sentem imperfeitas, envergonhadas e escravas de todas essas normas sociais. Outras seguem as regras acriticamente e se sentem bem em relação a si próprias por serem valorizadas pela sociedade.

Cada vez mais cedo meninas são incentivadas a fazer dietas desnecessárias, proliferam-se sites de internet que propõem estilos de vida anoréxicos e mulheres entram em depressão porque não aceitam seus corpos. O controle sobre o corpo feminino está disseminado, não necessita de armas para a sua imposição. Existe uma vigilância generalizada, pronta a apontar qualquer deslize quanto às regras, qualquer “pneuzinho” ou flacidez. Em busca da normatização, as mulheres vivem em dietas permanentes, malhação, cirurgias estéticas. Toda essa preocupação leva a extremos como anorexia, bulimia, e mutilações por cirurgias plásticas.

Em uma análise sobre o “Mito da beleza”, Wolf (1992) afirma que, após todas as conquistas da mulher nas últimas décadas, parece que quanto mais obstáculos são vencidos, mais rígidas e cruéis são as normas de beleza impostas. Quanto mais espaços sociais são conquistados pela luta pela igualdade de direitos, outros tantos são perdidos pelo sentimento de inadequação e vergonha. A liberdade pela qual tanto se lutou é relativizada pela imposição do poder sobre os corpos.

É curioso que uma geração depois das lutas feministas, as mulheres aceitem morrer de fome ou remover uma costela para afinar seus corpos. Toda a luta pela liberação sexual trouxe uma nova forma de controle, sutil e disseminada, que perpetua a dominação sobre os corpos femininos. “Como resposta à revolta do corpo, encontramos um novo investimento que não tem mais a forma de controle-repressão, mas de controle-estimulação: ‘Fique nu… mas seja magro, bonito, bronzeado!” (Foucault, 1985, p.82). A mulher de hoje é livre para mostrar o seu corpo à vontade – desde que ele esteja moldado aos padrões de beleza como magreza, ausência de flacidez, de celulites…

O embelezamento tem uma função muito importante dentro da dicotomia sexual: a de aprofundar cada vez mais a diferenciação entre esses dois sexos. A mulher considerada feia é aquela que apresenta características consideradas masculinas como barba, corpo largo, traços faciais menos delicados. A dicotomia sexual traz uma série de normas para os corpos masculinos e femininos que têm por conseqüência a criação do anormal e a discriminação em relação a ele. Os padrões de beleza são cada dia mais rígidos e violentos e, por serem naturalizados e velados, não se tornam uma preocupação a não ser quando resultam em casos extremos. A sutileza com que esses padrões se fazem presentes, entretanto, parece coloca-los na esfera do inquestionável. Enquanto isso, influenciadas pela atual concepção binária dos sexos, a violência do embelezamento feminino e a repressão aos que não seguem suas regras aumentam.

O objetivo deste artigo não é fechar a discussão com propostas e soluções para as questões apresentadas, mas sim suscitar a reflexão sobre concepções naturalizantes tão freqüentes em nossa sociedade e a desconstrução de valores e conceitos arraigados.

::Referências Bibliográficas

Foucault, M. (1985). A Microfísica do Poder. São Paulo: Ed. Graal.

Laqueur, T. (2001). Inventando o sexo: corpo e gênero dos gregos a Freud. Rio de Janeiro: Ed. Relume Dumará.

Louro, G. L. (1995). Gênero, História e Educação: construção e desconstrução. Educação e Realidade, 20(2), 101-132.

Oliveira, R. M. de (2004). Corpos dóceis ou corpos em rebelião? Construção da feminilidade e devir-anoréxico na internet. Dissertação de Mestrado, Universidade de Brasília, Brasília.

Wolf, N. (1992). O mito da beleza: como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres. Rio de Janeiro: Rocco.

Publicado em: PETrechos – Ano XIII – Dezembro de 2004

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