Falta de luz causa mal humor

Quando estive na Holanda para um grande workshop com 100 comunicadorxs de todos os cantos do planeta, numa das noites de farra com a turma latina, uma amiga chilena impediu a outra amiga colombiana de acender o cigarro na chama da vela. Ela disse como quem alerta para um grande mal: acender o cigarro na vela causa mal humor!

Estou começando a considerar essa possibilidade. Na falta de luz elétrica para enxergar por onde anda e do isqueiro para acender o cigarro, quem não fica de mal-humor?

Semana passada eu tive a chance de testar isso. Saí do trabalho segunda-feira às 18h pensando em chegar em casa logo, quem sabe ir à academia dar uma malhadinha e adiantar alguns trabalhos no computador. Eu estava a uns 300 metros de casa quando me dei conta de que todas as janelas do meu prédio (são 160 apartamentos) estavam apagadas. Também o prédio ao lado estava todo no escuro, assim com a banca de jornal, o hotel que fica mais à frente, a academia com a porta fechada, todos os apostadores em cavalos na porta do turfe com cara de quem estava perdendo dinheiro à toa, o BigBi aberto, mas todo apagado com seus e suas atendentes com os cotovelos no balcão, esperando a luz voltar. Pensei: ah, não!… A primeira dúvida era se eu conseguiria entrar no prédio, consegui. Perguntei ao porteiro o que estava havendo e ninguém sabia, só sabiam que a luz tinha ido embora por volta das 15h e até aquele momento não havia solução.

 O que fazer quando você mora no 9º andar e não há eletricidade para mover o elevador até lá?

Pensei em duas alternativas: subir de escadas e ficar lá aqui em cima no escuro esperando o momento “fiat lux” ou procurar algum lugar para esperar com uma cervejinha gelada, de onde eu pudesse ficar olhando praquela esquina escura (sim, era só uma parte da rua, justamente a minha parte!). Escolhi a segunda opção.

Bati em um bar, não tinha mesa do lado de fora. Bati em outro, não podia fumar do lado de dentro. Parei na carrocinha de sopas e caldos que fica em frente ao mercado. Fiquei ali e decidi comer um angu com miúdos de frango, e pedi uma latinha de cerveja. 

Mal tinha acabado de sentar e percebi uma gritaria no portão do estacionamento do mercado.  Um garoto negro, forte, bonito, na faixa dos 13~14 anos ordenava que o segurança tirasse o dedo de sua cara. Achei que tinha sido algum desentendimento, fiquei prestando atenção pra prevenir abusos contra o menor, até que o garoto saiu. E voltou, e em poucos minutos nova gritaria. Ele saiu de novo, voltou novamente e em poucos instantes estava chamando um dos flanelinhas pra porrada no meio da rua, armado de uma pedra portuguesa apanhada da calçada. Óbvio que se tratando de um menor, ninguém quis chegar às últimas com ele. Mas não foi por falta de provocação.

Em um dos intervalos da confusão com o garoto, passou uma mulher numa camionete. Ela gritava tão histericamente dentro do carro com uma criança, que mesmo a senhora dona dos caldos estranhou e comentou: e era com a criança!

Pouco tempo depois disso, e já encerrada a confusão no estacionamento do mercado, nova gritaria no estacionamento. Era briga entre um casal, em que o homem dizia que não estava olhando pra nada de mais, e a mulher pedia satisfações por algo que ele tinha feito e que ela não gostou. Eu e a senhora dona da sopa não conseguimos entender direito o que se passava. Ainda bem que terminou rápido – ou pelo menos o casal foi embora rápido.

Um pouco depois disso, um fusca dourado parou na porta do hotel que estava exatamente na minha frente. Um homem na frente, uma mulher atrás. Ela se inclunou para frente e falou algo com ele, que imediatamente reagiu com um TABEFE na cara dela. Levei um susto e fiquei observando pra conferir se tinha visto direito. Eu tinha. Eles ficaram ali uns 20 minutos ou mais. Ela chorava, se lamentava, falava com ele, e levava mais tabefes. Senti um desejo enorme de tirá-la de dentro daquele carro, mas tive medo de ser pior.

Um parêntese: em Brasília eu tinha mais coragem de tomar atitudes como chamar a polícia, intervir. Aqui acho tudo tão arriscado, as pessoas tão revoltadas, agressivas e justiceiras, que me acovardo.

Finalmente um rapaz saiu do hotel, entrou no fusca e lá se foram aquel@s. Só depois de irem embora percebi que havia outra pessoa no banco de trás, provavelmente uma criança, pelo tamanho.

Eu já quase terminava de tomar a latinha quando ouvi um barulho metálico. Blômk! O sinal fechado, dois ônibus parados, e um táxi se enfia debaixo da traseira do segundo ônibus. Ambos motoristas ficaram tranquilos, não tinha o que argumentar ali, o taxista viajou na maionese e não freiou, ponto. Chamaram a perícia, preservaram a cena, tudo direitinho, a não ser pelo fato de que no Rio de Janeiro não se respeita a sinalização horizontal de trânsito. Portanto, o ônibus estava parado NO MEIO da pita, entre as duas faixas. Resultado: se não fosse pelo recuo destinado a embarque e desembarque na frente do hotel, nenhum carro passaria por ali enquanto a perícia não terminasse. Mas embora os carros passassem, os ônibus e caminhões tinham que dar uma volta enorme por Santa Tereza.

Acabou a latinha. Enchi-me de coragem e fui procurar comprar uma lanterna. Não achei. Entrei no mercado então pra compar velas, fazer o quê? Já me lembrando do mal-humor. Muita gente devia ter acendido cigarro com vela naquela noite… Aproveitei pra compar também algo pronto que eu pudesse lanchar mais tarde, algo fácil de preparar no 9º andar sem luz.

Quando saí do mercado, vi a banca de jornais com as luzes acesas, e atrás dela o meu prédio todo aceso também! UFA!! Salva pelo gongo! As velas ficaram de reserva para a próxima falta de energia, tomara que demore!

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