A Zona agora será Azul, como o DEM(O)

O noticiário televisivo local noturno (ou o DFTV) de hoje informou que “o Zona Azul começará a funcionar até o final do ano”. Uma passante, sozinha em seu automóvel, reclama que precisa ficar mais de meia hora esperando dentro do carro por uma vaga; outro adicto à prática do automóvel individual conta que não tem vaga suficiente para estacionar todos os carros, e que se estaciona de forma irregular (!) é multado.

O Secretário de Transportes do governo DEM (GDF do Arruda), Alberto Fraga, informa que até o final do ano, ou seja, entre 20 e 40 dias, será implantado o sistema Zona Azul nos setores Comercial, Bancário e outros locais de grande concentração de automóveis – individuais, claro. A “novidade”, que já é praticada em outras mecas do capitalismo (São Paulo, Londres, Nova Iorque…), cobrará de usuários e usárias de automóveis a contribuição de R$ 1,70 a R$ 2,00 por hora de uso da vaga.

Ora… quando eu morava num prédio residencial na 405 sul e abriram um boteco que virou “point” da moda bem em frente à minha janela e as pessoas frequentadoras do dito bar começaram a lotar o estacionamento do meu prédio, eu não pude fechar o estacionamento por se tratar de área pública. Pagamos por ela no IPTU e no IPVA! Mas fechar o estacionamento do SCS, SBS, SCN e SBN para “controlar o tráfego” e gerar lucro para alguma empresa – que certamente é amiga daquelas que vendem carros, constróem viadutos… – aí pode!?

Interessante como o senhor Alberto Fraga e sua equipe têm idéias brilhantes para resolver problemas de trânsito. Não faz mais de um mês que o vi na televisão interpelado sobre a continuidade do engarrafamento na EPTG após o término das obras do viaduto de acesso a Águas Claras e adjacências. O repórter perguntava por que o problema não havia sido resolvido com aquela obra magnífica e ele, com a mesma cara de “E agora?” de sempre, dizendo que resolveria o problema colocando agentes da PM – Batalhão de Trânsito no local para controlar o fluxo de carros. Acredita?!

A mesma cara de “E agora?” ele fez quando retirou as vans prometendo que os microônibus resolveriam o sistema de transporte público e as pessoas começaram a se rebelar nas paradas de ônibus da periferia por falta de transporte para chegar ao local de trabalho. Até hoje não foi resolvida essa questão. Quem mora no Gama, por exemplo, não tem alternativa para vir trabalhar no Plano Piloto, a não ser os pouquíssimos ônibus velhos e sujos que frequentemente quebram no meio do caminho…

Senhor Secretário de Transportes: quando o senhor vai acordar e perceber que a solução para o trânsito nas grandes cidades (ou nem tão grandes assim) é um sistema de transporte eficiente, seguro e custo-efetivo, para diminuir a quantidade de automóveis nas pistas? Fora o lucro dos donos de concessionárias (seus amigos, não é mesmo, senhor Secretário?), a prática de uma pessoa por carro e a realidade da média de mais de um carro por habitante em Brasília (!!) não é progresso, mas retrocesso??!

Ah… na mesma edição do DFTV, vimos a notícia de um terreno da Terracap que valia R$ 8 milhões e o comprador só pagou R$ 300 mil, construiu um complexo de prédios de apartamentos/kitinetes/estúdios, e já está alugando. Quem é o responsável pela área/obra? Carlos Estevão Taffner, do Grupo OK, do nosso conhecido Luis Estevão… O mesmo que vende carros, constrói prédios, administra imóveis e é dono do Braziliense Futebol Clube. É realmente um jogo de compadres.

Espero que minhas irmãs e irmãos do Distrito Federal escolham melhor nossos representantes nas próximas eleições!

DE ONDE VEM, PRA ONDE VAI? A história das coisas.

Não resisti! Vi esse vídeo outro dia em um site, mas não tinha como colocar no blog. Agora que chegou no youtube, aqui está!

VALE MUITO A PENA ASSISTIR!

PENSE DE NOVO. AINDA DÁ TEMPO.

Mudando um pouco o foco das nossas conversas, vejam aqui a série de animações produzida pelo WWF Brasil chamando a atenção para a destruição do nosso ambiente de vida.

Pense nisso. Pense de novo. Pense mais uma vez.

Agora levante-se e faça a sua parte.

Ainda dá tempo!

Pense nas suas ações cotidianas, diárias, e no que você pode fazer: usar menos carro, caminhar mais, exigir transporte público/coletivo de qualidade (assim você pode usar esse meio de transporte e poluir menos), comprar menos enlatados e produtos que precisam de venenos para serem produzidos, baixar mais música em vez de comprar CDs, usar pilhas recarregáveis em tudo, trocar todas as lâmpadas por econômicas (que chegam a durar 10 anos!), produzir menos lixo, começar uma pequena horta comunitária, consumir alimentos orgânicos, adotar a sacola retornável e abolir sacolinhas plásticas de supermercados, preferir sempre produtos reciclados, e adotar o novo lema do milênio: REDUZA, REUTILIZE, RECICLE!

Fique atenta nas suas próximas compras: a madeira daquela estante é certificada? Você está comendo carne do boi que está sendo alimentado pela soja que está avançando sobre os pastos, que por sua vez estão avançando sobre a Amazônia? A fabricante da sua calça jeans faz o quê com toda a química utilizada para tingí-la? Você realmente precisa de um novo celular? O que vai fazer com o antigo? Tomate com agrotóxico ou orgânico? Para onde vai a água que você desperdiça quando lava louça ou escova os dentes? Está usando muito amaciante, detengente biodegradável, jogando óleo no ralo da pia?…

Pense nisso. Pense de novo. Pense mais uma vez. Agora levante-se e faça sua parte.

Ainda dá tempo!

Você sabe qual é o preço do dinheiro? Sabe mesmo?

Pense nisso. Pense de novo. Pense mais uma vez.

Agora levante-se e faça sua parte. Ainda dá tempo!

Quem ama não mata – a morte de Eloá

Indignação de Luriana e Martha

Durante esse período afastada, deixei a TV ligada acompanhando esse caso tão atual que é o do assassinato dessa moça Eloá pelas mãos do ex-namorado (foi enterrada agora há pouco). Um final trágico, mas que nos fez pensar e perceber as reações e atitudes mais absurdamente machistas que, pensamos, já estivessem sendo superadas.

Não acreditamos em crime passional. Não engulimos esse crime como passional, já que não acreditamos nele, claro. Isso é uma desculpa fajuta para “justificar” a proteção da honra de um homem, lhe dando o direito de matar “a mulher desonrosa”.

No mesmo final de semana, uma outra moça foi assassinada pelo ex-namorado que não aceitava o término do namoro. Atirou nela e se matou em seguida.

Mas no caso da Eloá, uma pendenga que se arrastou por 5 dias, garantiram a integridade física do assassino, mas as duas reféns levaram a pior. A outra só não morreu por sorte, pois levou o tiro igualmente na cabeça.

Mas ele é o coitadinho, é um homem atormentado por amor, que fez isso por estar sofrendo de amor, porque não tinha, até então, passagem alguma pela polícia nem problemas de nenhuma natureza. E a polícia não tomou postura mais drástica em relação a ele por causa disso. E os jornalistas, psicólogos, advogados e demais entrevistados explicaram suas atitudes também baseados nesse conceito da mente apaixonada do rapaz. O tempo todo era o que o rapaz estava sentindo. Não ouvimos nenhum comentário sobre como estaria o psicológico da Eloá, por exemplo, ou o trauma que seria para uma menina como a Nayara retornar para o lugar onde foi refém, voltar para o seu cativeiro.

O que achamos impressionante é escutar as inúmeras justificativas para o que ele fez, sempre colocando “o amor” como desculpa, ou até escutar um psicólogo na TV dizer que muito provavelmente ele seja bipolar – falta pouco pra dizer que ele não é responsável pelos seus próprios atos.

Os policiais foram maleáveis com ele por ser um coitadinho, sofrendo de uma desilução amorosa? Um homem trabalhador, só estava apaixonado, coitadinho. Mas agiram como agiram para evitar que ele se ferisse. E as meninas? E a Eloá que faleceu?

Crimes passionais são as desculpas para esses homens acabarem com as vidas de suas ex-companheiras ou atuais esposas/namoradas. É um médico que incendeia a ex-namorada, um playboy que, ao achar que está sendo traído, sente-se no direito de matar a namorada. É o estudante que dilacera o rosto da ex-namorada para que ela não possa ser de mais ninguém. É o coitadinho que joga ácido sulfúrico na ex-noiva. É o motoboy, já denunciado antes por agressão, que faz a namorada refém numa farmácia e a elimina com um tiro na cabeça. Exceto esse último, os outros todos não tinham nada de registros policiais.

Será que essa “teoria do crime passional” existiria se fossem quase totalmente cometidos por mulheres? O que fariam os policiais se fosse uma mulher mais velha, grande, mais forte, que mantivesse dois pequenos rapazes novinhos sob a mira de uma arma? Agora é culpa da vítima ele ser descontrolado – segundo um tenente, a Eloá ficava provocando e respondendo ao assassino, “isso não poderia ser feito, ela não devia ter agido assim”. Agora é culpa da outra vítima também por ter retornado ao cativeiro – “foi uma surpresa para nós que ela entrasse novamente”. Tadinha, burrinha, ela ia só até a porta acenar pra amiga do outro lado de uma linha imaginária, tendo a nuca apoiada por um cano de um calibre 32.

São casos como esse que nos mostram que ainda falta muito a ser percorrido contra o machismo. O assassinato da mulher pelo seu ex-companheiro é geralmente justificado com essas desculpas esfarrapadas de “amor”, “paixão”, “ciúmes”.

Um criminoso e um assassino é o que ele é. E somente isso, um assassino, que cometeu um crime premeditado, se preparou para isso. Comprou arma, armou para tirar o irmão dela de casa, levou munição nos bolsos. Agrediu, bateu, xingou, humilhou e a matou.

Mais chato ainda é ver que as únicas pessoas que também viram esse caso sem essa “desculpinha” de amor foram mulheres. Para os homens isso ainda parece justificável…

E outra coisa que me chamou a atenção… o tipo de relacionamento que a Eloá e a Nayara tinham. Pelo que a amiga fez, pelas fotos que víamos na TV, pelo comportamento das duas… elas se amavam. Não digo no modo sexual, mas aquele amor inocente, aquele amor que, pela outra, a Nayara foi capaz de voltar a ser refém para não deixá-la sozinha. Talvez até uma linha muito tênue dividisse esse amor entre elas de um amor lésbico. Até consegui ver o assassino ter ciúmes da outra na vida da ex-namorada.

Eloá. O que as mídias e os especialistas não discutem

Indignação de Sandra Raquew dos Santos Azevedo, jornalista

Sábado, 18 de Outubro de 2008

Há menos de 24h do trágico desfecho do seqüestro de Eloá Cristina Pimentel, por Lindemberg Alves, todos atônitos procuramos “compreender” via mediação dos meios de comunicação social e de especialistas da segurança pública, psicólogos, e outros, um fato presente cotidianamente no noticiário: o assassinato de mulheres.

Muitas são as explicações que tentam dar conta do comportamento do jovem, cujo perfil durante o processo de negociação fora retratado pelos meios como de um rapaz tranqüilo, trabalhador, que tinha planos para casar. “Dificuldade de lidar com as frustrações”; “comportamento passional”, “de tolerância muito baixa às frustrações”, entre outros argumentos são discutidos publicamente em jornais, sites, rádio, enfim, em todo processo de agendamento desta lamentável crônica de mais uma tragédia midiatizada.

Inúmeros aspectos deste acontecimento são ressaltados na cobertura: o lugar, os protagonistas, o tempo, amigos, imagens, os momentos de negociação, os lugares de origem de Eloá e Lindemberg, as imagens… Todavia há um aspecto a ser considerado nesta notícia, e que passa intocado na cobertura de crimes que possuem semelhança com o homicídio de Eloá, o fato de que eles se relacionam com as desigualdades de gênero. Se nos negarmos a discutir também nos noticiários esta face da violência, será muito difícil à superação de algo que pode ser considerado, lamentavelmente, um padrão cultural vigente, a prática de crimes contra as mulheres.

Um breve monitoramento de mídia permite perceber a brutalidade e reificação de crimes como estes: eles não são apenas crimes passionais, podem ser situados numa teia complexa de construção de valores sociais que forjam um feminino fraco, vulnerável, incapaz e sem condições de decidir a própria vida, em contraposição a um modelo de masculinidade rígido e legitimado socialmente a partir da força, da dominação e do controle. São de certa maneira estes alguns dos elementos que mantém os mecanismos psíquicos do poder na constituição do sujeito e a na construção da sujeição.

Perceber os gêneros como processo de mediação do social é urgente para nos darmos conta da violência contra a mulher como um fenômeno social cujo aparecimento cotidiano nas mídias também precisa ser interpretado, refletido com e a partir dos veículos de comunicação e tendo como foco o papel social dos profissionais de imprensa.

A motivação de Lindemberg em manter seqüestrada Eloá e tentar por fim a vida da jovem se inter-relaciona com outros fatos conhecidos da sociedade brasileira, como os assassinatos de Ângela Diniz, Sandra Gominde, Daniela Perez, e ainda de inúmeros casos de violência e homicídios femininos que são noticiados, mas que carecem não de uma tentativa de tentar compreender o comportamento masculino, mas de questionar os valores sociais que se reproduzem nas trocas simbólicas e tecem ainda, tristemente, este predomínio do falo que oprime e extermina.

O tiro na virilha de Eloá não é só uma metáfora, mas uma expressão do ódio da tentativa frustrada de continuar mantendo o exercício do controle sobre o corpo das mulheres, por isto me sinto hoje também transpassada por esta bala.

Numa das notícias veiculadas sobre o Caso Eloá, dois personagens sobrenaturais surgiram: um anjinho e um diabinho que acompanhavam Lindemberg. Parece inacreditável, mas este recurso, muito comum entre homens que praticam violência contra as mulheres, aparece mais uma vez como uma máscara, uma performance que busca esconder o lado perverso de um imaginário social que em momentos como este é despertado pelos disparos protagonizados por um homem que representa os mecanismos simbólicos forjados socialmente e que negam cotidianamente às mulheres o seu direito a vida.

http://etnografiasdoinvisivel.blogspot.com/2008/10/elo-o-que-as-mdias-e-os-especialistas.html

Quem quer e não possui… mata porque ama!

Indignação de Kaliani Rocha

“Quero Eloá, amo a Eloá”, essa é a frase que se tornou símbolo do crime cometido por um homem violento e homicida. Frase que tirou o critério de crime da situação e colocou em cena a figura do homem apaixonado e desesperado pela falta do amor da sua vida.

Enquanto o Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) da Polícia Militar esperava durante longos cinco dias para saber se o homem violento e homicida iria se entregar, as pessoas se perguntam porquê os policiais não atiraram nele nas seis vezes que ele ficou na mira dos atiradores de elite.Vejo algumas pessoas se perguntarem de quem Eloá foi vítima. Aquela cegueira que tanto, nós feministas, denunciamos, ficou absurdamente evidente nesse caso que torturou de expectativa e medo a população brasileira.

O coronel da tropa de choque de São Paulo, Eduardo José Félix, diz que se atirasse num rapaz de 22 anos em crise amorosa, todos julgariam que ele matou um rapaz sem antecedentes criminais, trabalhador, por está desesperado pela perda da namorada, sem nem ao menos esperar uma negociação. Não só eu, mas acredito que muitas e muitas pessoas tremeram ao ouvir a declaração do coronel, que ao invés de decidir cumprir seu dever como policial, na defesa e proteção da vida das adolescentes enclausuradas e ameaçadas, resolveu proteger o “pobre rapaz vítima de uma crise amorosa”. Como as coisas podem ser tão distorcidas assim? Como se permite, apesar de tanto treinamento e experiência, que uma refém volte ao cativeiro?

O que mais me chocou, como ser humano, foi acompanhar Eloá viva na janela, por várias vezes e depois vê-la, rodeada de policiais, com um tiro na cabeça. O que mais me chocou como mulher, foi sentir o respeito pelo “rapaz apaixonado” e o descaso pela vida das duas adolescentes que estavam com o direito de viver ou morrer nas mãos de Lindembergue.

Na mídia e no ato passivo da polícia, ficou evidente que não se tratava de um bandido nem de um criminoso, mas de um rapaz com o futuro inteiro pela frente, que estava num momento de loucura. E onde fica o presente daquelas meninas? Onde fica o futuro delas? Por que os outros reféns, rapazes, foram logo liberados?

Em nenhum momento percebi o direito à vida ser discutido. O que se falava era que elas eram lindas e inseparáveis, e Eloá a menina mais bonita da escola. Ela é uma menina bela, ponto.

Como é que um homem maior de idade, que mantêm duas adolescentes de 15 anos na mira de uma arma de fogo em cativeiro por cinco dias, não é um criminoso? Por que tanto respeito a ponto de invadir o apartamento com balas de borracha apenas? As “balas de verdade” do “pobre rapaz” a vida de Eloá, e deixaram marcas para sempre no rosto de Nayara.

Amor? Até quando as mulheres vão morrer por essa coisa estúpida e perigosa que chamam de amor? Até quando os homens vão se sentir tão proprietários da vida das mulheres a ponto de decidir se ela continua ou acaba?

Evidentemente que ele não tinha nada a perder. Como negociar com um bandido se você não tem o que ele quer? Ele queria a propriedade sobre a vida de uma mulher, suas decisões, seu afeto, sua vida… e já que ele, na sua lógica, não a possuía mais, a penetrou e a feriu de morte com uma bala em seu ventre, região da sexualidade e da vida. E para acabar com a possibilidade enfim, dela continuar vivendo sua própria vida, suas próprias decisões, o veredicto final do “pobre rapaz”: um tiro que atravessou sua cabeça.

E por que ele teve tanta liberdade de decidir por isso? Porque ele é “o cara, o príncipe do gueto”, e príncipes costumam decidir quem vive e quem morre.

Agora como consolo, a mídia mais uma vez faz aquele velho discurso: “os órgãos da menina vão beneficiar pelo menos oito pessoas”, aquele discurso da bondade, do “não foi tudo perdido”, a diretora do hospital declara: “a gente acredita que vai ter grande sucesso. Apesar da dor da família, de todo esse estresse emocional que esse seqüestro causou, a gente tem alegria, com certeza, de fazer muitas pessoas que tinham o prognóstico fechado viverem”.

Sucesso? Estresse? Alegria? Essas palavras me trazem aquela sensação de filme já visto, do desvio das atenções, do apelo à doação de órgãos, o que de fato é absolutamente legítimo, mas que neste caso não pode borrar a atenção do assassinato de Eloá por um homem violento que se achava seu dono.

Apesar de tudo, o delegado do caso, Luis Carlos dos Santos, ainda tem muitas dúvidas antes de dar qualquer pronunciamento sobre a qualificação do crime: “Precisamos saber principalmente o que o levou a tomar a decisão de atirar nas vítimas”. Seria para rir se não fosse tão trágico!

Infelizmente, as mulheres ainda continuam lacradas, e neste caso, lacrada, perfurada no útero por uma bala, eliminada da sua condição de “ser”, pelo dono da situação, que decidiu que sem ser de sua propriedade, não havia nenhum motivo para continuar viva, ela já não tinha mais nenhum valor.

Espero que, no julgamento ao menos, esse homem violento, homicida premeditado e seqüestrador, seja visto como tal, e não como um “trabalhador, calmo, amigo, companheiro e rapaz desesperado” como quer a mídia e a polícia.

E eu fico aqui, me perguntando por que tanta condescendência com os homens violentos e assassinos e tão pouco direito para as mulheres nessa sociedade que se diz democrática.

Ex-namorado suspeito de matar jovem em Sorocaba

A jovem Camila Silva Araújo, de 16 anos, foi morta neste domingo (19) com um tiro na cabeça na Rua Carlos Chagas, em Sorocaba, a 99 km de São Paulo. O principal suspeito do crime é o ex-namorado da jovem, de 22 anos, que tem várias passagens pela polícia. Ele está foragido.A Camila rompeu o relacionamento com ele há 4 meses. Neste domingo (19), o rapaz teria ido até a casa da vítima e dito ao pai dela que estava melhorando de vida. Meia hora depois, ele teria voltado à casa da ex-namorada armado, colocado a família dela no quarto e seguido em direção ao quarto da jovem.

 

Onde e quando isso tudo vai parar?? Até quando seremos vítimas de femicídios, de crimes de honra fraca?

B.A.S.T.A.

Brasil – Feminicídio ao vivo: o que nos clama Eloá

Maria Dolores de Brito Mota e Maria da Penha Maia Fernandes *Adital

Tudo o que o Brasil acompanhou com pesar no drama de Eloá, em suas cem horas de suplício em cadeia nacional, não pode ser visto apenas como resultado de um ato desesperado de um rapaz desequilibrado por causa de uma intensa ou incontrolada paixão. É uma expressão perversa de um tipo de dominação masculina ainda fortemente cravada na cultura brasileira. No Brasil, foram os movimentos feministas que iniciaram nos anos de 1970, as denúncias, mobilização e enfrentamento da violência de gênero contra as mulheres que se materializava nos crimes cometidos por homens contra suas parceiras amorosas. Naquele período ainda estava em vigor o instituto da defesa da honra, e desenvolveram-se ações de movimentos feministas e democráticos pela punição aos assassinos de mulheres. A alegação da defesa da honra era então justificativa para muitos crimes contra mulheres, mas no contexto de reorganização social para a conquista da democracia no país e do surgimento de movimentos feministas, este tema vai emergir como questão pública, política, a ser enfrentada pela sociedade por ferir a cidadania e os direitos humanos das mulheres. O assassinato de Ângela Diniz, em dezembro de 1976, por seu namorado Doca Street, foi o acontecimento desencadeador de uma reação generalizada contra a absolvição do criminoso em primeira instância, sob alegação de que o crime foi uma reação pela defesa “honra”. Na verdade, as circunstâncias mostravam um crime bárbaro motivado pela determinação da vítima em acabar com o relacionamento amoroso, e a inconformidade do assassino com este fim. Essa decisão da justiça revoltou parcelas significativas da sociedade cuja pressão levou a um novo julgamento em 1979 que condenou o assassino. Outro crime emblemático foi o assassinato de Eliane de Grammont pelo seu ex-marido Lindomar Castilho em março de 1981. Crimes que motivaram a campanha “quem ama não mata”.

Agora, após três décadas, o Brasil assistiu ao vivo, testemunhando, o assassinato de uma adolescente de 15 anos por um ex-namorado inconformado com o fim do relacionamento. Um relacionamento que ele mesmo tomou a iniciativa de acabar por ciúmes, e que Eloá não quis reatar. O assassino, durante 100 horas manteve Eloá e uma amiga em cárcere privado, bateu na vitima, acusou, expôs, coagiu e por fim martirizou o seu corpo com um tiro na virilha, local de representação da identidade sexual, e na cabeça, local de representação da identidade individual. Um crime em que não apenas a vida de um corpo foi assassinada, mas o significado que carrega – o feminino. Um crime do patriarcado que se sustenta no controle do corpo, da vontade e da capacidade punitiva sobre as mulheres pelos homens. O feminicídio é um crime de ódio, realizado sempre com crueldade, como o “extremo de um continuum de terror anti-feminino”, incluindo várias formas de violência como sofreu Eloá, xingamentos, desconfiança, acusações, agressões físicas, até alcançar o nível da morte pública. O que o seu assassino quis mostrar a todas/os nós? Que como homem tinha o controle do corpo de Eloá e que como homem lhe era superior? Ao perceber Eloá como sujeito autônomo, sentiu-se traído, no que atribuía a ela como mulher (a submissão ao seu desejo), e no que atribuía a si como homem (o poder sobre ela – base de sua virilidade). Assim o feminicídio é um crime de poder, é um crime político. Juridicamente é um crime hediondo, triplamente qualificado: motivo fútil, sem condições de defesa da vítima, premeditado.

Se antes esses crimes aconteciam nas alcovas, nos silêncios das madrugadas, estão agora acontecendo em espaços públicos, shoppings, estabelecimentos comerciais, e agora na mídia. Para Laura Segato [1] é necessário retirar os crimes contra mulheres da classificação de homicídios, nomeando-os de feminicídio e demarcar frente aos meios de comunicação esse universo dos crimes do patriarcado. Esse é o caminho para os estudos e as ações de denúncia e de enfrentamento para as formas de violência de gênero contra as mulheres.

Muita coisa já se avançou no Brasil na direção da garantia dos direitos humanos das mulheres e da equidade de gênero, como a criação das Delegacias de Apoio às Mulheres – DEAMs, que hoje somam 339 no país, o surgimento de 71 casas abrigo, além de inúmeros núcleos e centros de apoio que prestam atendimento e orientação às mulheres vítimas, realizando trabalho de denúncia e conscientização social para o combate e prevenção dessa violência, além de um trabalho de apoio psicológico e resgate pessoal das vítimas. Também ocorreram mudanças no Código Penal como a retirada do termo “mulher honesta” e a adoção da pena de prisão para agressores de mulheres, em substituição às cestas básicas. A criação da Lei 11.340, a Lei Maria da Penha, para o enfrentamento da violência doméstica contra as mulheres.

Mas, ainda assim, as violências e o feminicídio continuam a acontecer. Vejamos o exemplo do Estado do Ceará: em 2007, 116 mulheres foram vítimas de assassinato no Ceará; em 2006, 135 casos foram registrados; em 2005, 118 mortes e em 2004, mais 105 casos [2]. As mulheres estão num caminho de construção de direitos e de autonomia, mas a instituição do patriarcado continua a persistir como forma de estruturação de sujeitos. É preciso que toda a sociedade se mobilize para desmontar os valores e as práticas que sustentam essa dominação masculina, transformando mentalidades, desmontando as estruturas profundas que persistem no imaginário social apesar das mudanças que já praticamos na realidade cotidiana. O comandante da ação policial de resgate de Eloá declarou que não atirou no agressor por se tratar de “um jovem em crise amorosa”, num reconhecimento ao seu sofrer. E o sofrer de Eloá? Por que não foi compreendida empaticamente a sua angústia e sua vontade (e direito) de ser livremente feliz?

Notas:
[1] SEGATO, Rita Laura. Que és um feminicídio. Notas para um debate emergente. Serie Antropologia, N. 401. Brasília: UNB, 2006.

[2] Dados disponíveis em: http://www.patriciagalvao.org.br/apc-aa-patriciagalvao/home/noticias.shtml?x=1076

* Ma. Dolores: Socióloga, professora da Universidade Federal do Ceará / Maria da Penha: Inspiradora do nome da Lei Federal 11340/2006. Colaboradora de Honra da Coordenadoria de Políticas para Mulheres da Prefeitura de Mulheres

Eloá será enterrada, e Nayara chora a morte da amiga

O enterro de Eloá

O corpo de Eloá Cristina Pimentel, 15 anos, deve ser enterrado no Cemitério Santo André às 9h desta terça-feira. A informação foi confirmada por um funcionário do local. Até as 13h15, o corpo de Eloá ainda não tinha deixado o Instituto Médico Legal (IML) de Santo André, onde passou por autópsia nesta manhã.A bala que estava alojada na cabeça de Eloá foi retirada e será encaminhada ao Instituto de Criminalística (IC).

O Hospital Beneficência Portuguesa informou que recebeu três órgãos de Eloá: coração, pâncreas e rim. De acordo com o hospital, o primeiro órgão a chegar foi o coração, às 5h15, e uma paciente de 39 anos já o recebeu. O transplante teve início às 3h e foi finalizado às 8h30. O procedimento foi comandado pelo cirurgião José Pedro da Silva.

Até o momento não há informações sobre os receptores dos demais órgãos.

Lindemberg Alves, 22 anos, invadiu o apartamento da família da ex-namorada Eloá, na tarde de segunda-feira. Ela estava acompanhada da amiga Nayara e de dois colegas de escola. Eles fariam um trabalho para aula quando todos foram rendidos.

Lindemberg libertou os dois adolescentes na segunda-feira à noite e Nayara na terça-feira, após mantê-la no apartamento por 33 horas. O seqüestro foi motivado pela recusa de Eloá em reatar o namoro. Na quinta-feira, Nayara voltou ao apartamento onde estavam Lindemberg e Eloá e saiu ferida com um tiro na boca.

Médicos decretaram a morte cerebral de Eloá às 23h30 deste sábado. Os órgãos foram liberados para doação pela família. Lindemberg responderá por homicídio e dupla tentativa de homicídio, segundo a polícia.

Nayara chora

A estudante Nayara Vieira, 15 anos, foi informada na manhã desta segunda-feira sobre a morte da amiga Eloá Cristina. Ela permanece internada no Centro Hospitalar de Santo André, para onde foi levada após o trágico desfecho do seqüestro conduzido por Lindemberg Fernandes Alves.O secretário de Saúde de Santo André, Homero Nepomuceno Duarte, disse que a estudante recebeu a notícia com tristeza e chorou bastante, mas manteve o equilíbrio emocional. Ela passou a manhã acompanhada por psicólogos e psiquiatras.

Nayara deve receber alta hospitalar na quarta-feira. Amanhã, os médicos vão retirar o aparelho que foi colocado para servir de apoio ao céu da boca, que precisou ser reconstruído. No desfecho do seqüestro que resultou na morte de Eloá, Nayara levou um tiro na boca.

GERAÇÃO DIGITALIGADA

Reverberando a iniciativa da juventude de Minas Gerais. Confira!!

http://www.fabricadofuturo.org.br/